Kiera Allen e Sarah Paulson em Fuja (Run)

Créditos da imagem: Fuja/Divulgação

Filmes

Crítica

Crítica: Sarah Paulson e novata Kiera Allen brilham no intenso suspense Fuja

Boa direção e atuações poderosas transformam premissa familiar em thriller sufocante de alta tensão

Arthur Eloi
02.04.2021
11h40

Fuja, o suspense de Aneesh Chaganty que chegou ao catálogo da Netflix, é um daqueles filmes em que é possível prever todas as suas reviravoltas nos primeiros momentos. Mas mesmo com uma premissa familiar, o impacto de ver uma garota sofrendo nas mãos da própria mãe, criada em uma vida de mentiras, se mantém intacto em uma obra repleta de tensão.

A trama acompanha Chloe Sherman (Kiera Allen), uma garota que, por complicações no nascimento, tem asma, hemocromatose, paralisia, diabetes e arritmia cardíaca. Apesar de uma intensa rotina de cuidados e remédios, a jovem de 17 anos anseia por um futuro promissor na universidade. Um dia, quando percebe que sua mãe, Diane (Sarah Paulson), age de forma suspeita com uma nova medicação, Chloe passa a questionar as boas intenções de sua cuidadora.

Relações obsessivas já foram muito exploradas no cinema, e Fuja traz um gostinho de clássicos como O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (1962) e Louca Obsessão (1990). Já sua caracterização é um pouco mais moderna, se inspirando nos infelizes casos de pais abusivos, como o de Dee Dee Blanchard, que foi adaptado na série The Act. O filme segue as regras de reviravolta desses exemplos, e a repetição em Fuja as torna um pouco batidas. Mas reduzi-lo à sua falta de originalidade diminui os seus muitos acertos.

Muita da força do longa está na direção de Aneesh Chaganty. O cineasta já havia demonstrado potencial em Buscando… (2018), suspense com John Cho gravado inteiramente por telas de computador e celular. Enquanto Fuja é menos inventivo, é visível que Changanty sabe trabalhar muito bem a atmosfera ao deixar o espectador tão apreensivo quanto Chloe, que rapidamente percebe ter sido isolada pela mãe. Cada investida da jovem para tentar descobrir o que lhe está sendo escondido é conduzida de forma sufocante, como se a menina estivesse cometendo uma série de infrações contra sua própria família. O olhar do diretor passa esse sentimento de culpa e angústia, o que só aumenta o impacto das terríveis descobertas.

Além da direção, o que torna Fuja marcante é suas atuações. Enquanto a veterana Sarah Paulson conquista com uma perturbadora combinação de sensibilidade, autoridade e loucura, é a novata Kiera Allen que realmente rouba os holofotes. Como Chloe, ela sustenta o humor, a curiosidade, a inquietação e a revolta da garota, e se compromete fisicamente ao papel. Pessoa com deficiência assim como sua personagem, Allen traz naturalidade nos detalhes, seja em como a menina se porta em sua casa ao longo de sua rotina, e também autenticidade aos momentos mais intensos, em que precisa rastejar e usar do máximo de sua criatividade para sair de enrascadas. Esse pode ser seu segundo trabalho em Hollywood, mas Kiera Allen tem potencial e dedicação de sobra para tudo que vier pela frente.

Mesmo que sua abordagem não seja das mais originais, Fuja conquista pela execução e pelo talento envolvido. Aneesh Chaganty novamente entrega um suspense altamente sufocante, ainda que não seja tão marcante quanto Buscando..., capaz de prender o espectador a cada nova virada, e se estabelece como um dos diretores novatos mais interessantes para ficar de olho.

Fuja
Run
Fuja
Run

Ano: 2020

País: Estados Unidos

Duração: 90 min

Direção: Aneesh Chaganty

Roteiro: Sev Ohanian, Aneesh Chaganty

Elenco: Sarah Paulson, Kiera Allen

Nota do Crítico
Ótimo

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados para as finalidades ali constantes.