Frutas Proibidas mina significado de um universo visto como vazio
Filme de Meredith Alloway já chega com cara de clássico
Créditos da imagem: Lili Reinhart em Frutas Proibidas (Reprodução)
Frutas Proibidas nunca presume saber o que o espectador está pensando. Tendo a premissa que tem e trafegando no universo estético que trafega, era de se esperar que o longa-metragem de estreia da diretora Meredith Alloway fosse mais “espertinho”, ou quisesse utilizar as pré-concepções do público contra ele próprio. Ao menos, é isso que o cinéfilo graduado em A Substância (no espectro positivo) e nas infinitas produções satíricas de Ryan Murphy (no negativo) aprendeu a esperar. Mas Frutas Proibidas não está aqui para parodiar, ou comentar – cada gota de sua devoção ao mundo ao qual pertence é genuína, e ele nunca pretende falar com ninguém a não ser quem divide essa devoção.
O filme acompanha Pumpkin (Lola Tung), jovem aparentemente modesta que consegue se engraçar com o grupo de garotas mais popular do shopping center onde trabalha: as funcionárias da descolada loja Free Eden, lideradas por Apple (Lili Reinhart). Aos poucos, ela vai descobrindo as rotinas e regras curiosamente detalhistas que o grupo segue, sua inclinação para rituais que beiram a bruxaria, e os segredos que cada uma das integrantes guarda. Tudo isso enquanto o roteiro, assinado por Alloway em parceria com Lily Houghton (dramaturga que originou essa história como peça de teatro), implica que a infiltração de Pumpkin no grupinho é mais calculada do que parece.
As referências óbvias aqui são filmes como Jovens Bruxas (1996), Meninas Malvadas (2004) e Garota Infernal (2009), que tipificaram muito desse universo (pós-)adolescente feminino no cinema das últimas décadas, seja visualmente ou em termos de estrutura de trama. A associação da feminilidade com a bruxaria, as conexões de amizade ambíguas entre as personagens, as relações atravessadas pela disputa por atenção masculina, o sangue e a água como conduítes de passagem em suas conotações essencialmente femininas; e por aí vai. Por outro lado, há também a tentativa de fugir desse padrão tóxico de sororidade, tantas vezes predicado por uma renúncia injusta das relações amorosas.
Mas se esses são os temas e ideias que flutuam na superfície de Frutas Proibidas, a verdade é que Alloway se mostra uma entendedora muito mais arguta do que seus colegas (tipicamente, homens) das subcorrentes que compõem o contexto em que o filme se desenvolve. A elaboração da metáfora religiosa – vide o título, em referência a Eva e seu pecado – dá a dica: Frutas Proibidas alça voo mesmo quando abre espaço para suas mulheres serem criaturas elementais, representações de anseios e impulsos tão puros e tão humanos que poderiam estar escritos em verso no meio de uma tragédia grega.
É aí que Lili Reinhart emerge como uma “vilã” para os livros de história do cinema, predicada numa fúria e numa carência que ardem febris em cena, inegáveis mesmo enquanto a personagem tenta escondê-las. Ela entrega a tour de force de um filme ancorado por quatro performances excelentes, número completado pelo timing cômico e fisicalidade de Victoria Pedretti como Cherry, pela normalidade essencial de Alexandra Shipp como Fig, e pela dissimulação serena de Lola Tung como Pumpkin. Cada uma delas se alinha com Frutas Proibidas, acima de tudo, ao enxergar e minar o significado, o ethos, de uma história e de um universo onde muita gente só vê estética – e olhe lá.
Falar que Frutas Proibidas tem cara de clássico cult é fácil: ele é estilizado de forma nostálgica, infinitamente citável, recheado de estrelas do momento, cheio de reviravoltas. Mas há tanta virtude cinematográfica a mais aqui, tanto em ambição quanto em execução, que talvez seja o caso de se livrar de um qualificador nessa frase. Para além das limitações do cult, ao qual tantas vezes o seu universo essencialmente feminino fica preso, Frutas Proibidas na verdade tem toda a aura de um clássico.
Frutas Proibidas
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