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Fragmentado | Crítica

M. Night Shyamalan sequestra o terror sádico e volta, surpreendentemente, às narrativas de fábula

Marcelo Hessel
23.03.2017, às 20H25
ATUALIZADA EM 23.03.2017, ÀS 22H03
ATUALIZADA EM 23.03.2017, ÀS 22H03

Nos filmes de M. Night Shyamalan, estar no mundo já é, em si, uma situação excepcional. Aqueles com premissa sobrenatural, que lidam com mensagens de elevação espiritual, frequentemente são histórias de formação juvenil exponenciadas pelas circunstâncias: a entrada no mundo adulto se dá não exatamente pelo trauma, mas pela ruptura, quando os personagens tomam consciência dessa excepcionalidade. Isso está em filmes tão distintos quanto Sinais e O Último Mestre do Ar.

Durante muito tempo, antes de Shyamalan "cair em desgraça", houve a promessa de que ele seria um novo Steven Spielberg, porque filmes como Contatos Imediatos de Terceiro Grau e Poltergeist realmente têm muito em comum com essa virada de chave natural-sobrenatural com que o inexplicável invade nossa vida. Mas talvez dê para voltar mais no tempo e ver também no cinema de Shyamalan, na vitória da vontade contra criaturas disformes, uma visita às obras dos irmãos Grimm, por exemplo. As garotas aparentemente indefesas protagonizavam os principais contos de fadas dos irmãos, de Cinderela a Branca de Neve, e não é diferente em filmes como A Vila e A Dama na Água.

Fragmentado (Split), no caso, tem muito de João e Maria - e não convém contar muito mais deste novo filme, para não diminuir o impacto do primeiro contato. Basta dizer (especialmente para quem acredita no conto da "desgraça" e nessa narrativa da "volta" do cineasta, que tem cercado o lançamento e seu sucesso de bilheteria) que Shyamalan continua o mesmo. Fragmentado repete os temas e a virada natural-sobrenatural dos principais filmes fabulares do diretor. A novidade maior é um impulso atordoante de expandir esse mundo a um nível de construção de universo franqueado. De resto, o que temos aqui é um ajuste fino no estilo do diretor e um jogo bastante eficiente de quebra de expectativa e entrega.

Dos filmes de Shyamalan, talvez Fragmentado seja o mais autorista, no sentido em que suas tendências formais mais recentes deixam de ser operações sutis e se tornam pegadas de fato, desde o som em off vazado em outros planos até a obsessão com o close-up feito com lente grande-angular. Até A Dama na Água, Shyamalan trabalhava frequentemente com o extracampo em seus suspenses, prendendo o espectador no pavor de não conseguir enxergar o que estava fora do enquadramento. A partir de Fim dos Tempos (o grande curto-circuito na carreira do diretor), o desconhecido passou a ser TUDO o que cerca os personagens e não apenas aquilo que estava fora do alcance do olhar. Daí o uso dessa lente, que traz toda a atenção para os rostos dos atores, e ao mesmo tempo amplia e deforma o entorno.

Nesse sentido, Fragmentado parece ser um filme mais bem sucedido do que Fim dos Tempos, por exemplo, não só porque James McAvoy tem mais abrangência como ator do que Mark Wahlberg, mas principalmente porque todo o motivo do personagem esquizofrênico de Fragmentado é desconsiderar o entorno e criar um mundo que seja só seu. Wahlberg tinha que enxergar tudo o que não existia. McAvoy vê só o que quer. O grande lance de Fragmentado enquanto terror B de sequestro e claustro é que as vítimas do protagonista se percebem forçadas a ver o mesmo que ele vê, mesmo antes desse "novo mundo" se manifestar fisicamente, e daí surgem tanto as oportunidades de humor quanto de horror neste filme, que resulta imprevisível.

E aí vem o jogo de quebra de expectativa. Ao trabalhar desde A Visita com a produtora Blumhouse, de Atividade Paranornal, Shyamalan teoricamente se filia a gêneros, como o found footage e o terror de sadismo, que nos parecem bem engessados nas suas margens de manobra. Fragmentado começa assim, formulaico: um rapto, um cativeiro, pequenos red herrings espalhados pela casa até uma eventual fuga. O que não estava claro no começo, e aos poucos vai ficando até o clímax do filme, entre muitas variações de tom, é que estamos, sim, em uma fábula de M. Night Shyamalan, que de repente se desprende do mundo natural e exige que seus personagens - por questão de sobrevivência, na maioria das vezes - passem a se comportar como agentes do sobrenatural. De um cenário assim podemos esperar mais do que só uma reação à velha maldade do mundo dos homens.

Nota do Crítico
Ótimo
Fragmentado
Split
Fragmentado
Split

Ano: 2017

País: EUA

Classificação: 14 anos

Duração: 107 min

Direção: M. Night Shyamalan

Roteiro: M. Night Shyamalan

Elenco: James McAvoy, Kim Director, Brad William Henke

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