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Crítica

Força Maior | Crítica

Filme sueco questiona a relação da sociedade burguesa com um julgamento moral

André Zuliani
05.03.2015
12h45
Atualizada em
29.06.2018
02h42
Atualizada em 29.06.2018 às 02h42

Uma atitude impensada pode trazer consequências para o psicológico de um indivíduo. Essa é a premissa de Força Maior (Force Majeure, 2014), quatro longa-metragem do diretor sueco Ruben Östlund, que venceu o prêmio de melhor filme da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes de 2014. Uma quase tragédia que evoca um drama familiar frio e incômodo para os personagens e os espectadores

A trama gira em torno do casal Tomas (Johannes Kuhnke) e Ebba (Lisa Loven Kongsli), que resolvem passar suas férias com o casal de filhos esquiando nos Alpes franceses para fugir do trabalho e da rotina. Tudo ocorria bem, até que em um almoço no restaurante da pousada a céu aberto, uma avalanche pega de surpresa a família e todos os turistas presentes. Ao se aproximar cada vez mais do local, a ameaça de serem soterrados se torna apavorante, instalando um terror momentâneo entre as pessoas. A primeira atitude de Ebba é proteger seus filhos e grita por socorro para o marido, que no primeiro instante, se viu correndo para longe do possível acidente. Uma cena bem trabalhada por Östlund, que transmite perfeitamente a apreensão dos personagens com um plano aberto, captando o perigo que cada vez mais parecia iminente.

Mostrando-se apenas um susto, os turistas começam a retornar às suas mesas, incluindo Tomas. E é a partir daí que o seu verdadeiro drama começa. A atuação do casal principal é um dos destaques do filme, muito bem capitaneadas pelo texto de Östlund. A indignação de Ebba perante a atitude do marido, que nega aos quatros ventos que tenha abandonado a sua família, é um conflito que puxa até o limite da atenção de quem acompanha a história.

Tomas se mostra cada vez mais envolvido e depressivo diante do desprezo da esposa, e por consequência de seus filhos, sentindo a necessidade de provar para todos (e si mesmo) que ele não é o covarde que Ebba descreve. A cena que os dois conversam sobre suas férias com um casal de amigos e entram no assunto do acidente, remete a um tribunal, em que todos parece julgar a atitude de Tomas e esperar uma explicação plausível para a sua resposta vazia. O diretor transborda a emoção nas cenas de discussões, com um leve toque de humor. O choro dramatizado do marido em frente a sua família, mesmo que emocionante, chega em alguns momentos a provocar o riso.

No final, o longa nos traz um questionamento pessoal: até que ponto nós demonstramos quem realmente somos para o mundo, incluindo as pessoas que mais amamos? Östlund usa a tortura moral de Tomas como uma crítica às relações da sociedade burguesa atual, que muitas vezes acabam cegas pela a ilusão de uma família perfeita e encontra a felicidade com a riqueza e a adoração dos amigos, esquecendo-se do que mais importa: o amor de um pelo outro.

Nota do Crítico
Ótimo