Uma nova temporada de Mobland vem aí!

Icone Fechar
Filmes
Crítica

Cativante, Feito Pipa transborda a esperança de um Brasil mais sensível e igual para todos

Longa de Allan Deberton foge de estereótipos para contar uma das histórias mais lindas do cinema nacional

Omelete
4 min de leitura
Atualizada em 18.08.2026, ÀS 09H14
Cativante, Feito Pipa transborda a esperança de um Brasil mais sensível e igual para todos

Existem filmes que retratam o interior do Nordeste brasileiro pela lente da dureza — da seca, da pobreza, da violência. Feito Pipa escolhe um caminho diferente e, ao fazer isso, entrega uma das experiências mais bonitas do cinema brasileiro em 2026: ele olha para essa mesma região e enxerga, ali, espaço para brilho, glitter e liberdade.

Gugu, o protagonista de 11 anos vivido por Yuri Gomes (em atuação digna de Oscar), é uma criança que não cabe em uma única caixa, e o filme de Allan Deberton entende isso com uma delicadeza rara. Ele gosta de futebol e também gosta de maquiagem. Dança com o mesmo entusiasmo com que joga bola. É afeminado, orgulhoso do próprio jeito de ser, e o roteiro nunca pede desculpas por isso, nem transforma sua identidade em problema a ser resolvido. O problema, se existe, está fora dele — está no mundo que ainda não aprendeu a recebê-lo.

Omelete Recomenda

É nesse ponto que Feito Pipa acerta o que tantos outros filmes erram: ao invés de simplificar seus personagens em vilões e mocinhos, Deberton constrói complexidade em todo mundo, principalmente no pai de Gugu. Batista, interpretado por um Lázaro Ramos, poderia facilmente ter sido escrito como o antagonista óbvio da história: o pai homofóbico que rejeita o filho. Mas o filme se recusa a essa facilidade. Batista ama Gugu. Ele quer se aproximar. O que existe entre os dois não é ausência de afeto, é o preconceito que ele carrega e não sabe atravessar sozinho. Essa escolha de roteiro é o que dá ao filme sua maior força: ela obriga o público a sentar-se no desconforto de reconhecer humanidade até no personagem que fere.

A avó Dilma, vivida por uma Teca Pereira em estado de graça, é o contraponto necessário: a casa segura de Gugu, o lugar onde ele pode ser quem é sem medo. Mas mesmo esse porto seguro é abalado quando Dilma começa a apresentar sinais de Alzheimer e, com teimosia própria de quem não quer perder a própria independência, se recusa a tratar a doença. É aqui que Feito Pipa se revela também um coming of age no sentido mais literal da palavra. Gugu, sem escolha, passa a cuidar da avó como cuidaria um adulto, administrando a casa, ajudando com os sintomas, protegendo o segredo dela para não ser separado do único lugar onde se sente livre. A infância, para ele, quase precisa ser abreviada às pressas.

O filme ainda tem a ambição de expandir sua lente para o coletivo. A construção de uma barragem que expulsa moradores de suas casas, gerando revolta e terminando em tragédia, funciona como pano de fundo político que ecoa o drama pessoal de Gugu: também aqui, gente é deslocada de onde pertence, também aqui, um lugar que deveria significar segurança se torna instável. Deberton não usa esse fio narrativo como decoração de contexto social — ele o entrelaça organicamente à jornada do protagonista, reforçando que o filme fala, o tempo todo, sobre pertencimento.

E talvez seja exatamente essa palavra que resuma o motivo de Feito Pipa funcionar tão bem. Porque por trás das câmeras, há uma história pessoal quase gêmea da de Gugu: o roteirista André Araújo se inspirou na própria infância como menino afeminado no interior nordestino para escrever o filme. Mais do que ficção, Feito Pipa é uma carta de amor ao Gugu que ele gostaria de ter sido e ao interior que ele gostaria de ter vivido — um lugar onde ser diferente não significasse estar sozinho. Essa camada autobiográfica não é apenas contexto de bastidores; ela explica por que cada escolha do filme parece tão genuína, tão distante de qualquer estereótipo produzido de fora para dentro.

O resultado é um filme generoso, que trata seus personagens — os que erram e os que ferem — com a mesma ternura que trata Gugu. É cinema feito como um gesto de esperança: a esperança de que crianças queer no interior do Brasil possam se ver na tela, se sentirem representadas com verdade, e talvez, um dia, também se sentirem livres para dançar e jogar bola ao mesmo tempo, sem que ninguém as obrigue a escolher. Feito Pipa merece a nota máxima porque faz o que poucos filmes conseguem: transformar uma história pessoal em um espelho universal, sem perder um grama de delicadeza pelo caminho.

Nota do Crítico

Excelente!

Feito Pipa

Feito Pipa

Ver ficha completa Lauch Icon
NR Drama
Duração: 93 min
Direção: Allan Deberton
Roteiro: Andre Araujo
Elenco: Yuri Gomes, Lázaro Ramos, Teca Pereira, Carlos Francisco, Georgina Castro, Alda Pessoa, David Santos, Beatriz Carwile, Luan Vasconcelos
Data de lançamento: 05 de novembro de 2026

Comunidade Omelete

Escrever minha crítica


Clique para classificar:

Comentários (0)

Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.

Escrever comentário


Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a nossa Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.