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Crítica

Cativante, Feito Pipa transborda a esperança de um Brasil mais sensível e igual para todos

Longa de Allan Deberton foge de estereótipos para contar uma das histórias mais lindas do cinema nacional

Omelete
4 min de leitura
17.08.2026, às 06H00.
Cativante, Feito Pipa transborda a esperança de um Brasil mais sensível e igual para todos

Existem filmes que retratam o interior do Nordeste brasileiro pela lente da dureza — da seca, da pobreza, da violência. Feito Pipa escolhe um caminho diferente e, ao fazer isso, entrega uma das experiências mais bonitas do cinema brasileiro em 2026: ele olha para essa mesma região e enxerga, ali, espaço para brilho, glitter e liberdade.

Gugu, o protagonista de 11 anos vivido por Yuri Gomes (em atuação digna de Oscar), é uma criança que não cabe em uma única caixa, e o filme de Allan Deberton entende isso com uma delicadeza rara. Ele gosta de futebol e também gosta de maquiagem. Dança com o mesmo entusiasmo com que joga bola. É afeminado, orgulhoso do próprio jeito de ser, e o roteiro nunca pede desculpas por isso, nem transforma sua identidade em problema a ser resolvido. O problema, se existe, está fora dele — está no mundo que ainda não aprendeu a recebê-lo.

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É nesse ponto que Feito Pipa acerta o que tantos outros filmes erram: ao invés de simplificar seus personagens em vilões e mocinhos, Deberton constrói complexidade em todo mundo, principalmente no pai de Gugu. Batista, interpretado por um Lázaro Ramos, poderia facilmente ter sido escrito como o antagonista óbvio da história: o pai homofóbico que rejeita o filho. Mas o filme se recusa a essa facilidade. Batista ama Gugu. Ele quer se aproximar. O que existe entre os dois não é ausência de afeto, é o preconceito que ele carrega e não sabe atravessar sozinho. Essa escolha de roteiro é o que dá ao filme sua maior força: ela obriga o público a sentar-se no desconforto de reconhecer humanidade até no personagem que fere.

A avó Dilma, vivida por uma Teca Pereira em estado de graça, é o contraponto necessário: a casa segura de Gugu, o lugar onde ele pode ser quem é sem medo. Mas mesmo esse porto seguro é abalado quando Dilma começa a apresentar sinais de Alzheimer e, com teimosia própria de quem não quer perder a própria independência, se recusa a tratar a doença. É aqui que Feito Pipa se revela também um coming of age no sentido mais literal da palavra. Gugu, sem escolha, passa a cuidar da avó como cuidaria um adulto, administrando a casa, ajudando com os sintomas, protegendo o segredo dela para não ser separado do único lugar onde se sente livre. A infância, para ele, quase precisa ser abreviada às pressas.

O filme ainda tem a ambição de expandir sua lente para o coletivo. A construção de uma barragem que expulsa moradores de suas casas, gerando revolta e terminando em tragédia, funciona como pano de fundo político que ecoa o drama pessoal de Gugu: também aqui, gente é deslocada de onde pertence, também aqui, um lugar que deveria significar segurança se torna instável. Deberton não usa esse fio narrativo como decoração de contexto social — ele o entrelaça organicamente à jornada do protagonista, reforçando que o filme fala, o tempo todo, sobre pertencimento.

E talvez seja exatamente essa palavra que resuma o motivo de Feito Pipa funcionar tão bem. Porque por trás das câmeras, há uma história pessoal quase gêmea da de Gugu: o roteirista André Araújo se inspirou na própria infância como menino afeminado no interior nordestino para escrever o filme. Mais do que ficção, Feito Pipa é uma carta de amor ao Gugu que ele gostaria de ter sido e ao interior que ele gostaria de ter vivido — um lugar onde ser diferente não significasse estar sozinho. Essa camada autobiográfica não é apenas contexto de bastidores; ela explica por que cada escolha do filme parece tão genuína, tão distante de qualquer estereótipo produzido de fora para dentro.

O resultado é um filme generoso, que trata seus personagens — os que erram e os que ferem — com a mesma ternura que trata Gugu. É cinema feito como um gesto de esperança: a esperança de que crianças queer no interior do Brasil possam se ver na tela, se sentirem representadas com verdade, e talvez, um dia, também se sentirem livres para dançar e jogar bola ao mesmo tempo, sem que ninguém as obrigue a escolher. Feito Pipa merece a nota máxima porque faz o que poucos filmes conseguem: transformar uma história pessoal em um espelho universal, sem perder um grama de delicadeza pelo caminho.

Nota do Crítico

Excelente!

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