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Família Rodante | Crítica

Família Rodante

Marcelo Hessel
08.12.2005, às 00H00
ATUALIZADA EM 09.11.2016, ÀS 14H06
ATUALIZADA EM 09.11.2016, ÀS 14H06

Família Rodante
Familia Rodante
Argentina/Espanha/ Inglaterra/Brasil, 2004
Comédia/Drama, 98 min

Direção e roteiro: Pablo Trapero

Elenco:
Liliana Capurro, Graciana Chironi, Ruth Dobel, Federico Esquerro, Bernardo Forteza, Laura Glave, Leila Gomez, Nicolás López, Sol Ocampo, Marianela Pedano, Carlos Resta, Raul Viñona

Uma das cenas marcantes de Do outro lado da lei (El bonaerense, 2002), o primeiro filme do argentino Pablo Trapero a chegar comercialmente no Brasil, era o festejo do Réveillon dos policiais de Buenos Aires. A crise econômica da Argentina atingia toda a instituição, faltava dinheiro para comprar munição. Mas isso não impedia que os companheiros celebrassem com triste otimismo o ano que viria, bebendo, refestelando-se, dando tiros para o alto.

A maneira com que Trapero filma, com a câmera muito próxima a corpos e objetos, num close-up constante, tornava aquele ritual ainda mais agoniante, quase um rito de morte. A tristeza que existe por trás de um momento de felicidade, uma tristeza que se escava na epiderme das pessoas é o mote do seu filme mais recente. Família rodante (2004) é melancolia do início ao fim.

A personificação dessa melancolia é Emilia (Graciana Chironi), matriarca de 84 anos de uma família farta. O filme abre com ela remexendo sua caixa de fotografias antigas. É o seu aniversário, comemoração com as amigas de tarde, os parentes à noite. Meio como um presente, ela recebe um telefonema de sua irmã, que ainda mora no interior em que nasceram. A notícia: haverá um casamento e todos em Buenos Aires estão convidados. A avó Emilia não quer saber de resmungos. Terão que caber todos os dez filhos e netos, mais o bisneto, numa camionete, mil quilômetros a caminho de Missiones, fronteira com o Brasil.

Missiones também é conhecido como o fim do mundo. Não fosse pelo show esdrúxulo que o White Stripes resolveu fazer recentemente por lá, permaneceria incólume nos mapas da região, cercado de estradas de terra, mata cerrada, luz e telefone escassos. Aliás, fora da capital, rios Uruguai e Paraná acima, o que se vê está longe da cenografia europeizada de Buenos Aires. Os próprios personagens, já entuchados no veículo balouçante, se ressentem de ter que passar calor e aperto fora de seu habitat natural.

Quatro gerações que sintetizam o painel da capital - espécie de microcosmo que funciona como metonímia (a parte pelo todo) da vida bonaerense - desfilam na tela. Há o adolescente que flerta com a prima, a garota de piercings, tatuagens e bebê no colo, o cunhado com sua câmera digital, o casal de casamento abalado, o menino que pega cães na estrada. São lições que Julio Cortazar (1914-1984) ensina desde 1959, com Os prêmios, seu primeiro romance: a família de classe média é o resumo do estrato social.

O mestre da literatura paira como referência no ar, mas o road-movie de Trapero não tira sua força do texto, mas do uso calculado e eficiente do som e da câmera. Os já citados close-ups e, especialmente, a cacofonia (ruídos se acumulam enquanto tentamos entender o que se fala em cena) aproximam o filme de outro exemplar do novo cinema argentino, Pântano, o excelente filme de estréia de Lucrecia Martel.

São os dois melhores diretores argentinos em atividade. Trapero e Martel dividem entre si o apego por histórias de personagens. Exercitam, mais do que isso, um cinema naturalista ao extremo, de diálogos enxutos, situações improvisadas e atores não-profissionais. Como em A menina santa, o elenco de Família rodante parece não estar encenando, mas vivendo de fato a vida dos personagens. A começar por Emillia, a quem Trapero reserva carinho até a tomada final, contemplativa e lamuriosa como no início do filme. A diferença entre os dois diretores é que Martel não tem comiseração pelos personagens. A eles, Trapero reserva a melancolia.

Nota do Crítico
Ótimo
Família Rodante
Voyage en Famille
Família Rodante
Voyage en Famille

Ano: 2004

País: Argentina

Classificação: 14 anos

Duração: 103 min

Direção: Pablo Trapero

Elenco: Graciana Chironi, Nicolás López

Onde assistir:
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