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Crítica

Everytime traça o efeito do luto na era digital num dos melhores filmes de 2026

Vencedor da Un Certain Regard, longa de Sandra Wollner é febril, hipnótico e excelente

Omelete
4 min de leitura
23.10.2026, às 10H40.
Everytime

Créditos da imagem: Divulgação

O que acontece quando alguém morre, hoje, no Século 21? Minha intenção com essa pergunta não é especular sobre uma vida após a morte que teria, por alguma razão, alguma característica específica à nossa época. O que realmente acontece, particularmente com os amados daquela pessoa que são deixados para lidar com a perda numa época onde registros do falecido nos cercam constantemente? É essa dinâmica que anima o febril, hipnótico e devastador Everytime de Sandra Wollner, um dos melhores filmes de 2026.

Isto porque a presença de Jessie (Carla Hüttermann) persegue o trio de protagonistas do filme para todo lado. Sua mãe Ella (Birgit Minichmayr), a irmã Melli (Lotte Shirin Keiling) e o namorado Lux (Tristan López) enxergam vislumbres da adolescente não só nas ruas, bosques e corredores por onde Jessie passou em seus últimos dias; ela está nos seus celulares, computadores e até servidores de Minecraft, seu lazer no tempo livre. O luto, parece, quebrou a barreira entre o físico e o digital. Apropriadamente, Everytime segue uma rota cada vez mais surreal, mapeando esse borrão entre realidades através das emoções não resolvidas em cada um.

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Em Ella, parece haver uma raiva contida. Um monstro que ela mantém à distância com a decisão de viver com o máximo de normalidade possível. Na pequena Mille, que tem na morte da sua irmã um evento de perda de inocência que Everytime sabiamente não deixa explícito até o momento certo, vemos uma espécie de negação melhor exemplificada pelas mensagens de WhatsApp que a menina insiste em enviar para o número de Jessie, com uma pitada de esperança. Quem sabe ela responde. Em Lux, há a culpa. Ele estava com Jessie quando ela caiu do telhado de um edifício residencial sob efeitos das drogas que consumiu com o namorado numa balada.

Everytime
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A morte de Jessie é a primeira de algumas grandes sequências visuais de Everytime. Através da fotografia em 35mm de Gregory Oke (Aftersun), rica em textura e saturação, enxergamos o nascer do sol de uma Berlim laranja onde, Jessie observa – chapada, mas precisa no comentário –, não parece haver ninguém. Em meio às varandas vazias e ruas quietas, não há nenhuma alma. Ora, são as primeiras horas do dia num mês de férias. As pessoas devem estar dormindo. Mas diz muito sobre o cuidado de Wollner em trabalhar a ambiguidade, e a força de seu diretor de fotografia em pintar um cenário digno do devaneio, que temos a mesma reação de Jessie: há algo estranho aqui. Talvez todo mundo tenha ido para um outro mundo, e talvez ela tenha se lançado em busca de encontrá-los.

Everytime não dá muita margem para a ideia de que Jessie tenha se suicidado, mas novamente, esse não é um filme com muitas respostas definitivas. O sucesso artístico de Everytime reside justamente em desafiar nossas expectativas. A cena da morte de Jessie é um ótimo exemplo disso. Conforme ela nota a cidade deserta, Jessie decide filmar o que vê no seu iPhone. Wollner faz a câmera de Oke buscar os mesmos alvos da de Jessie, como se a personagem agora fosse a operadora do maquinário. Onde uma perspectiva começa, e a outra termina?

Se isso soa meio Lynchiano, não é um acidente, e por mais que dois terços de Everytime se preocupem com a banalidade da vida interferindo no processo de luto dos personagens, Wollner eventualmente abraça o desequilíbrio cósmico que permeia toda a obra com um terceiro ato que desafia o espaço e o tempo. Em boa parte da história, Ella, Millie e Lux parecem ter escolhido viver uma tristeza quieta, torcendo para que os eventos corriqueiros do dia-a-dia eventualmente sejam o suficiente para que eles esqueçam. É uma tarefa que o filme julga ser impossível.

Everytime
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Vencedor da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes 2026, Everytime não é um filme sobre redes sociais, smartphones e videogames, mas não porque essas coisas não são instrumentais para sua narrativa e composição. Pelo contrário: Wollner identificou, corretamente, que não há mais novidade nesses elementos eletrônicos. Eles são tão comuns quanto um quarto, uma foto impressa ou até mesmo o mar. Aliás, é justamente para o oceano (de Tenerife, um arquipélago próximo à Espanha) que o trio vai no brilhante e indecifrável terceiro ato de Everytime.

Enfim realizando as férias que fariam com Jessie se ela não tivesse partido para esse outro tipo de existência, virtual, invisível e constante, esse grupo inesperado (um jovem, sua ex-sogra e a filha dela) embarca num sonho onde a nova versão da pessoa que eles perderam se manifesta de maneira mais intensa. Explicar o que acontece naquela praia seria não só errado da parte de um crítico, como de pouco serve para pontuar a qualidade desse longa. É justo dizer, porém, que o limite entre o digital, o físico e o espiritual desaparece de vez, algo que Wollner enfatiza colocando em tela uma das cenas mais arrepiantes do ano. Uma história que começou com um crepúsculo chega ao fim com um pôr-do-sol inexplicável, impossível e inesquecível.

Everytime foi exibido na 50ª Mostra SP. O filme não tem previsão de estreia no Brasil.

Nota do Crítico

Everytime

Everytime

Duração: 119 min
Direção: Sandra Wollner
Roteiro: Sandra Wollner
Elenco: Lotte Shirin Keiling, Carla Hüttermann, Tristán López, Birgit Minichmayr
Onde assistir:

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