Eu Sou Mais Eu

Créditos da imagem: Imagem Filmes/Reprodução

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Crítica

Eu Sou Mais Eu

Novo filme de Kéfera busca contato teen mais confessional mas se marca pela impessoalidade

Marcelo Hessel
24.01.2019
13h29

Dos Youtubers brasileiros que migraram para o cinema, Kéfera Buchmann sempre foi a mais disposta a se arriscar numa chave cômica, mais próxima da tradição histórica do nosso humor nas telas - o que já demarca também uma intenção mais séria de trocar o nicho da Internet pelo establishment do audiovisual brasileiro. Seu novo filme, Eu Sou Mais Eu, tem as "qualidades" do cinema industrial: valor de produção em cenários e situações, estética próxima da publicidade, um bom elenco coadjuvante para cimentar a credibilidade.

É o passo-a-passo na direção de uma conformidade, em que Kéfera aos poucos abriria mão do amadorismo "selvagem" para se firmar como uma persona da tela (o que implica se domar). Ao mesmo tempo, Eu Sou Mais Eu não deixa de ser um produto típico do jovem comentarista pós-irônico, que cresceu vendo De Repente 30 e Meninas Malvadas e que se vacina contra as comparações fazendo em seu filme de high school suas próprias piadas de metalinguagem (citando De Repente 30 literalmente, colocando as patricinhas de rosa). Se a metalinguagem é uma doença infantil do cinema, como diz o crítico Jean-Claude Bernardet, Kéfera permanece, a exemplo dos nossos demais Youtubers-atores, na infância da sua empreitada fílmica.

Então o longa dirigido por Pedro Amorim tenta se encontrar no meio desses dilemas: como abraçar a impessoalidade do cinema industrial sem diluir a figura de Kéfera (que traz consigo questões autobiográficas nessa trama sobre bullying e autoafirmação), como preservar o caráter de outsider da atriz (Kéfera xinga como se estivesse num filme de Scorsese e o maior êxito da sua transição é levar consigo o palavreado sem filtros do Youtube para as telas) e ao mesmo tempo transformá-la num camaleão profissional que se renovaria de filme a filme.

Por mais que Eu Sou Mais Eu seja cheio de boas intenções nas suas mensagens e Kéfera inspire simpatia enquanto figura pública que se presta a despir-se na tela, a balança pesa mais para o lado da impessoalidade. Boas cenas com o núcleo familiar (Flávia Garrafa, que interpreta a mãe, e Arthur Kohl, que vive o avô de Kéfera, são os grandes lastros do filme) se diluem na ambientação genérica. Da vizinhança de subúrbio americano de Kéfera ao espaço da escola, a maioria das coisas que Eu Sou Mais Eu traz da sua matriz parece menos uma emulação de nostalgia e cinefilia do que uma reprodução industrial mesmo, impessoal, de imagens importadas de uma realidade que não nos diz respeito.

Se o filme de Amorim tinha a intenção realmente de despertar no espectador um senso de pertencimento e de empatia - no relato dos dramas colegiais, no resgate emocional de referências da cultura pop dos anos 2000 - no fim Eu Sou Mais Eu parece estabelecer essa ponte muito mais pelo filtro da cultura de fã do que propriamente pela imersão numa experiência transformadora de adolescência. Isso pode funcionar dentro da brincadeira pós-irônica (em que o fator que uniria ídolos e fãs seriam os gostos em comum, como curtir De Repente 30) mas é discutível se isso traz o fã/espectador para mais perto dos atores/ídolos. Na verdade talvez seja até uma forma mesmo de manter entre fãs e ídolos uma distância "segura".

Nota do Crítico
Regular