Filme do “Patriota do Caminhão” faz crônica curiosa sobre um Brasil dividido
Caco Ciocler fecha sua trinca sobre situação no país durante o governo Bolsonaro com Eu Não Te Ouço, um exercício simples e eficiente
Créditos da imagem: Divulgação
A cena que inspira Eu Não Te Ouço, novo longa dirigido por Caco Ciocler, já parecia saída de uma sátira absurda tal qual Monty Phyton ou Casseta & Planeta. Um homem com a camisa do Brasil se agarra à frente de um caminhão para impedir sua passagem durante protestos contra o resultado das eleições de 2022. Arrastado por quilômetros, o “Patriota do Caminhão” viralizou e virou símbolo do radicalismo político instaurado no país.
Ciocler transforma esse episódio em matéria-prima para um exercício de ficção que mistura humor, crítica social e mockumentary. O resultado disso é menos interessado em explicar o Brasil e mais atento em observar como seus personagens deixaram de se ouvir.
O cinema americano sempre soube transformar seus traumas históricos em narrativa. Guerras, escândalos políticos e crises nacionais viram dramas, sátiras e thrillers que ajudam a construir memória coletiva, inclusive no resto do mundo. No audiovisual brasileiro, os anos do governo Jair Bolsonaro parecem caminhar para um lugar parecido. A pandemia, os protestos antidemocráticos e a tentativa de golpe de 8 de janeiro devem se tornar prato cheio para produções futuras.
Antes de Eu Não Te Ouço, o ator e diretor realizou Partida, ambientado na ascensão de Bolsonaro em 2018, e O Melhor Lugar do Mundo É Agora, falso documentário situado durante a pandemia. O novo longa encerra essa trilogia olhando para os impactos sociais e emocionais deixados pelo período.
Ciocler entrevista tanto o caminhoneiro quanto o manifestante patriota, os dois interpretados pelo ótimo Marcio Vito. A escolha funciona como o principal motor simbólico do filme, pois existem diferenças físicas evidentes entre eles. O que muda é o discurso, a percepção de realidade e a maneira como cada um interpreta o próprio papel dentro do país. De um lado, o trabalhador que rejeita rótulos políticos e tenta garantir sustento e estabilidade para a família. Do outro, um homem consumido pela ideia de salvar a pátria a qualquer custo. Ambos falam sem parar e nunca se escutam.
Pode parecer uma metáfora rasa, mas é justamente nessa simplicidade que Eu Não Te Ouço encontra força. O longa funciona como uma crônica amarga e bem humorada sobre um país preso em ciclos de ressentimento, paranoia e incomunicabilidade.
Com apenas 70 minutos, o filme consegue manter o interesse durante boa parte da narrativa, ainda que existam momentos em que a estrutura se torna repetitiva. Ainda assim, essa redundância acaba reforçando a ideia central da obra: o Brasil não consegue fugir de discussões inconclusivas, como uma estrada longa demais e sem saída.
O “Patriota do Caminhão” surge quase como um fantasma shakespeariano. Uma figura que representa culpa, medo e loucura coletiva. Ao se olharem pelo vidro, os dois temem um ao outro, se xingam, apontam falhas, mas no fim, precisam encarar a dura realidade de serem o mesmo. Eu Não Te Ouço talvez não tenha respostas para a divisão brasileira, mas encontra uma imagem poderosa para sintetizar o momento do país: dois lados incapazes de dialogar enquanto seguem presos na mesma estrada.
Eu Não Te Ouço
Eu Não Te Ouço
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