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Crítica

Eu Juro escapa do “cinema inspiracional” com foco irrestrito no seu protagonista

Filme sobre ativista com Síndrome de Tourette constrói e destrói uma vidinha ordinária

Omelete
3 min de leitura
22.10.2026, às 08H00.
Eu Juro (Reprodução)

Créditos da imagem: Eu Juro (Reprodução)

Eu Juro começa com John Davidson (Robert Aramayo) recebendo o seu MBE – sigla para Member of the Order of the British Empire, uma das maiores honrarias do Reino Unido – das mãos da Rainha Elizabeth II. Trata-se apenas de um prólogo, um marcador de página que nos introduz ao biografado e levanta a curiosidade: como ele chegou àquele lugar, apesar de sua Síndrome de Tourette, transtorno neurológico que causa incontroláveis espasmos físicos a explosões verbais, muitas vezes carregadas de profanidades e ofensas?

O diretor/roteirista Kirk Jones (A Fortuna de Ned), então, imediatamente rebobina a fita para a infância de Davidson, antes dos primeiros sintomas começarem a aparecer. Vivido pelo ótimo estreante Scott Ellis Watson, o jovem John é um garoto excepcionalmente ordinário, que leva uma vida confortável e cercada de promessas. Há rachaduras na relação dos pais, é claro, mas em qual lar britânico médio em plenos anos 1980 não haveria? O primeiro grande trunfo de Eu Juro é justamente este: construir um universo de normalidade – serenidade, até – absoluta, e ter a paciência de deixar que o público se habitue a ele antes de explodi-lo em pedacinhos.

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Esse processo é retratado na narrativa pelos efeitos desestabilizadores da Tourette, estabelecidos como mais do que uma quebra de decoro ou de expectativa utilizada para efeito cômico. Eis aqui um garoto que podia esperar tudo na vida, e provavelmente receberia – de repente, ele se vê sem perspectiva alguma, pontes queimadas ao seu redor, e pouca ideia de como encontrar outras. O diretor de fotografia James Blann (Feel Good) filma essa mudança de direção radical com a sobriedade que ela merece; e o montador Sam Smead (Reencarnação) deixa a dramaturgia de cada cena respirar, sem ceder aos impulsos mais dinâmicos e populistas de filmes semelhantes a este.

Essa é a cartilha que Eu Juro segue por suas subsequentes 2h, se esquivando aqui e ali de todas as armadilhas que histórias como a de Davidson costumam gerar no cinema. A vida dele nunca é retratada por Jones e seus colaboradores como “inspiradora” ou “afirmadora”, e tampouco é transformada no que os falantes de inglês definem como “um crowd-pleaser” (na tradução literal: um “agradador” de plateias) – muito embora alguns críticos tenham usado essa expressão para defini-lo, de qualquer forma. Não é justo dizer que Eu Juro “não está tentando agradar ninguém”, mas ele certamente não se desdobra e se contorce para fazê-lo… até porque seu principal argumento é que Davidson tampouco precisa.

Na sensibilidade dessa abordagem, o longa cumpre o papel de conscientizar – é de fato absurdamente valioso que Eu Juro tenha alcançado tanta gente que nunca ouviu falar da Tourette – sem fazer com que a história do seu protagonista sirva a alguém ou alguma coisa que não seja ela mesma. É um filme que faz rir quando o próprio personagem ri de si próprio, que emociona pelas relações que ele constrói e a aceitação que elas representam, e que se mostra refrescantemente objetivo no retrato do ativismo que de fato levou Davidson àquele tal momento do MBE. 

É evidente, enfim, que Eu Juro não está interessado em idolatrar o seu biografado, apresentá-lo como exemplo para o espectador, ou qualquer coisa assim. Não é sobre você, é sobre ele – e é ao apresentar a vida dele sem muitos rodeios, em todas as emoções que se misturam dentro dela, que o filme se torna tão absolutamente irresistível.

*Eu Juro foi exibido no Festival do Rio 2026. Ainda não há previsão de estreia para o filme no circuito comercial brasileiro.

Nota do Crítico

Eu Juro

I Swear

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NR Drama, História
Duração: 121 min
Direção: Kirk Jones
Roteiro: Kirk Jones
Elenco: Robert Aramayo, Maxine Peake, Peter Mullan, Shirley Henderson, Scott Ellis Watson, David Carlyle, Francesco Piacentini-Smith, Somerled Campbell, Michael Dylan
Data de lançamento: 22 de setembro de 2025

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