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Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Filmes

Crítica

Estrada Sem Lei

A história de Bonnie e Clyde é fascinante; a de Frank Hamer e Maney Gault ninguém conhece - e poderia ter continuado assim

Matheus Bianezzi
26.04.2019
17h21

Imagine que o casal de bandidos mais famoso da história fossem apenas jovens psicopatas com sede de sangue e que os policiais que assassinaram Bonnie Parker e Clyde Barrow com mais de 130 tiros fossem os grandes heróis esquecidos no tempo. Estrada Sem Lei (The Highwaymen) funciona como uma resposta atrasada ao clássico filme de 1967 - e, numa contradição sublime, além de não evocar os mesmos sentimentos do longa de Arthur Penn, soa mais moralista do que um filme de 51 anos atrás. 

Em 1934, vivendo uma vida que claramente não se aplica à sua própria natureza, o Texas Ranger aposentado Frank Hamer (Kevin Costner) é convocado pela governadora - a sempre excelente Kathy Bates - para uma missão extraordinária: caçar e dar um fim à onda de crimes cometidos pelos já glamourosos Bonnie (Emily Brobst) e Clyde (Edward Bossert). Saudoso de seus tempos de glória e numa espécie de dever estoico, o velho Hamer aceita a jornada e vai em busca de algum de seus parceiros das antigas para o acompanhar. Isso se prova um problema, afinal, quase todos os nomes de sua lista haviam morrido. Menos um: Woody Harrelson, ou melhor, Maney Gault. 

Embora ambos achem na caçada um objetivo em comum, a dupla de protagonistas são opostos complementares. Como em todo duo clássico de filmes policiais, existe o detetive que puxa pelo alívio cômico e o outro sério, amargurado pela vida. Nesse caso não é diferente - assim como não é difícil imaginar quem interpreta qual arquétipo. Mesmo que de uma maneira passiva e empregatícia, Maney Gault tenta ser a voz da humanidade para o sempre imperturbável Frank Hamer, que responde as dúvidas morais com uma moralidade nua e crua. Histórias do passado são levantadas para o roteiro sensibilizar as escolhas de ambos e empregar à película um dilema psicológico, mas, no final das contas, os mais de 130 tiros ainda acontecem. Independente do que o filme quer suavizar, a sensação que fica é que os personagens são apenas velhos resignados e que tem o dever como prioridade. Simplista, não? 

Existe uma razão pela qual a história de Bonnie e Clyde é contada e recontada: ela é fascinante. Envolve um romantismo pitoresco e fora da curva das lendas de bandidos tradicionais, soando mais como ficção do que realidade. Entender a mente de personas tão distintas e apresentar para o público é rentável tanto em termos de conteúdo quanto monetários. Dessa forma, é inegável que também existe uma razão para a história de seus executores não terem sido contadas até hoje: geralmente, são apenas seres humanos cumprindo suas funções da melhor maneira possível. E isso não é de longe tão interessante quanto um casal apaixonado que rouba bancos e escreve poesias no jornal. 

O filme dirigido por John Lee Hancock (Um Sonho Possível) e refinadamente fotografado por John Schwartzman tem seus momentos de brilho, mesmo que espaçados.  Não impondo um sentimento de urgência - algo necessário se tratando de um longa de perseguição -, o mais fácil é encarar como um filme de viagem e assistir os excelentes Kevin Costner e Woody Harrelson contracenando com uma boa química. Não são papéis que tiram os atores de suas zonas de conforto, pelo contrário, eles fazem o que sabem fazer de melhor. Costner sendo o cara durão e que rosna palavras, enquanto Harrelson vive o carismático ex-alcoólatra com uma presença de tela fundamental - na mesma pegada de Haymitch Abernathy, de Jogos Vorazes, só que realista. São deles os momentos onde a direção mais funciona. Quando o indicado ao Oscar por Três Anúncios Para Um Crime toma o controle dos diálogos, John Lee Hancock e seu estilo simples e convencional se acentuam de maneira positiva. Pena que esses momentos são lampejos dentro de uma linguagem cinematográfica majoritariamente comum. The Highwaymen decepciona ao tentar contar o outro lado de uma história que todo mundo já previa. Ela não é diferente e muito menos cativante. É apenas ortodoxa. 

Ao contrário do que muitos pensam, o ator Warren Beatty não ficou famoso por ter cometido uma gafe homérica ao errar o vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2017. Ele viveu Clyde Barrow em Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas (1967). E, oposto ao novo longa da Netflix, esse sim é um filme que vale a pena ser visto e revisto e que transmite de uma forma bem mais especial o porquê de mais de 20 mil pessoas terem comparecido ao funeral do casal com alma de Robin Hood. 

Nota do Crítico
Regular