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Crítica

Esquadrão Suicida | Crítica

Galeria de vilões de Batman é subaproveitada em filme sem tom e sem timing

Marcelo Hessel
02.08.2016
13h00
Atualizada em
29.06.2018
02h35
Atualizada em 29.06.2018 às 02h35

Todo diretor de cinema parece a pessoa mais miserável do mundo às vésperas do lançamento de um filme seu. O Omelete conversou com David Ayer em Nova York a três dias da premiére mundial de Esquadrão Suicida, e, além de abatido pelo processo de finalização do longa da equipe de vilões da DC, Ayer estava estranhamente resignado: seu lugar de preferência é no set, ao lado de atores, e ele diz que a montagem de Suicide Squad foi particularmente difícil.

Sem entrar no mérito das refilmagens e das mudanças de tom que acompanharam toda a divulgação do filme - que parecia um Seven com supervilões no trailer da Comic-Con de 2015 e depois de Deadpool ganhou uma cara muito mais cartunesca - a primeira meia hora de Esquadrão Suicida evidencia essa dificuldade da montagem. Cartelas animadas e canções se sobrepõem para tentar dar conta da apresentação dos personagens e instilar no filme um dinamismo pop, mas o começo é apressado e truncado, como na cena do eletrochoque com o Coringa, incompreensível do ponto de vista da continuidade. Também nas entrevistas, Jared Leto nos disse que muito material do palhaço ficou de fora, e é visível que esse início de filme passou pelos cortes mais pesados.

Pode parecer uma questão menor dentro da lógica de todo blockbuster - mais preocupados em oferecer cenas de ação a cada 20 minutos do que a estabelecer arcos de personagens - mas a partir do momento em que Esquadrão Suicida queima a largada, oferecendo de forma automatizada um par de flashbacks de origem sem um senso de criação de expectativa ou de revelação, tudo o que vem depois passa a soar igualmente desobrigado de envolver o espectador. A missão logo se apresenta para o grupo recém-formado de vilões - depois de uma ou duas viradas também ligeiras envolvendo Magia (Cara Delevingne, à vontade na sua releitura de Sigourney Weaver possuída em Caça-Fantasmas) - e Ayer termina fazendo uma longa cena de batalha com uma hora de duração e as mesmas ameaças de destruction porn que Marvel e DC aprenderam com Michael Bay e Roland Emmerich.

Assim como em Corações de Ferro, o superestimado longa anterior de Ayer, o filme joga tudo na ideia de que, em meio à ação, uma química brotará entre os protagonistas e será capaz de desenvolver espontaneamente esses dramas que no fundo podem ser bem densos, especialmente o da médica enlouquecida por uma relação abusiva. Embora se veja condicionada a um texto mais dedicado aos momentos cronometrados de alívio cômico - fazer de Esquadrão Suicida um filme que se propõe sério mas não tão sério assim - Margot Robbie consegue dar à Arlequina alguma vida própria. Já o Coringa tarado de Leto, mistura de Voldemort com Tony Montana, não tem espaço para crescer embora insista em aparecer no filme todo, e termina mais inconveniente do que perigoso.

Robbie não é o único destaque; as mulheres especialmente se sobressaem, e Viola Davis cria uma Amanda Waller que faz justiça à força que a personagem tem nos quadrinhos. São vitórias pontuais, porém. O mais frustrante de tudo é a sensação de oportunidade mal aproveitada. Esquadrão Suicida tinha, talvez até mais do que Deadpool, o potencial de oxigenar os filmes de super-herói, com personagens escolhidos a dedo na excelente galeria de vilões de Batman, mas David Ayer não encontra um tom para seu filme de início, depois desiste francamente de procurar, e termina se contentando com as soluções mais burocráticas do gênero.

Nota do Crítico
Regular