Escape Room

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Crítica

Escape Room

Quando não está tratando o espectador como idiota, filme que tinha tudo para dar errado surpreende com pegada de “Jogos Mortais para a família toda”

Arthur Eloi
08.02.2019
12h38
Atualizada em
08.02.2019
12h56
Atualizada em 08.02.2019 às 12h56

O cinema do começo dos anos 2000 viu o terror ficar cada vez mais sádico. De Jogos Mortais a O Albergue, a tendência de focar no sangue, tripas e violência rendeu o apelido de “torture porn” ao subgênero, que ficou no passado quando franquias como Atividade Paranormal e Invocação do Mal provaram que era possível horrorizar sem tanta apelação. Agora, a Sony Pictures resgata o conceito com Escape Room - só que em uma versão muito mais light do que qualquer teste feito por Jigsaw.

Na trama, seis pessoas sem qualquer relação entre si são convocadas através de um quebra-cabeças a tentar a sorte na mais “inovadora e imersiva” sala de escape já feita. Movidos pela curiosidade - e um prêmio de US$10 mil - o grupo conversa enquanto espera… até perceberem que já estão jogando, e que será preciso entender a conexão entre eles para sobreviver. De cara, o filme tem tudo para dar errado: já não basta sofrer do moda contemporânea que é adaptar literalmente qualquer coisa para as telonas (como emojis, Hot Wheels,etc), também não ajuda que se trata de um produto do estúdio com alguns dos piores longas de terror dos últimos anos (Slender Man, Cadáver) comandado por Adam Robitel, cineasta com trabalhos medíocres em Sobrenatural e Atividade Paranormal. É uma combinação premiada que só podia dar errado - o que torna  surpreendente o quão divertido Escape Room é.

Partindo do princípio que os personagens entendem que estão em armadilhas que requerem cooperação para fugir, o filme não perde tempo em colocá-los para trabalhar em formas de desvendar as salas. A maneira como isso é conduzido traz o espectador para o mesmo patamar, buscando por pistas e jeitos de solucionar os enigmas junto com os protagonistas. Por conta dessa aproximação, o horror vai para o plano de fundo e dá espaço para a aventura, que desperta a curiosidade ao mostrar o quão inventivos os desafios podem ser. A cena do bar invertido, por exemplo, é um dos pontos altos ao esbanjar criatividade nas soluções e muita tensão no processo de alcançá-las. É nesse momento de angústia, com todos correndo contra o tempo para resolver os enigmas e sobreviver, que fica claro que o longa tem algo especial nas mãos: trocando a intenção sádica pelo desafio intelectual, e deixando as mortes sangrentas de lado (ou sequer mostrando-as), Escape Room soa como Jogos Mortais para a família toda - e funciona muito bem nesses momentos.

O grande problema surge justamente quando resgata outra ideia de Jigsaw: a “personalização” das armadilhas, ou seja, ligá-las ao passado dos personagens. É uma boa para pular direto para a ação, mas o filme nunca realmente explica a história de seus protagonistas de uma forma que não seja tediosa. A tarefa então cai para os mesmos, que em momentos específicos têm flashbacks de seus grandes traumas ou então simplesmente contam tudo que lhes aconteceu da maneira mais anti-climática possível. Se a ideia era colocar o público na mesma página que os personagens, é preciso que o espectador entenda com quem está jogando para poder solucionar os enigmas no mesmo ritmo - e tratar o público como idiota, pegando-o pela mão ao invés de indicar os fatos importantes,  não é o melhor jeito de solucionar o problema.

Acontece que, no fim das contas, essa mania de explicar tudo serve mesmo como um indicador do que está por vir. É evidente que responder as grandes dúvidas centrais - quem são os responsáveis, qual o propósito do jogo - é algo que aterrorizou a produção. Isso culmina no pior final que poderia ter apresentado, em que um dos “organizadores” literalmente senta e explica tudo. É aí que o longa perde completamente a mão e abraça um ritmo bizarro para tentar responder todas as questões pendentes e criar novas para estabelecer uma continuação - e o resultado é simplesmente desastroso. Os últimos 20 minutos correm para encaixar a resolução, um álibi para a polícia não conseguir investigar o caso, um salto temporal e um gancho para o próximo jogo - mas nenhum desses elementos é realmente desenvolvido de forma satisfatória. Se o filme surpreende por ser uma ideia ruim que dá certo, a conclusão só retoma e confirma todos os preconceitos iniciais.

Quando funciona, Escape Room é um bom exemplo de que o terror lida com muito mais do que o medo: tensão, angústia e desafios lógicos impossíveis também são elementos do gênero que merecem ser explorados além dos sustos baratos, como fizeram O Cubo (1997) e Circle (2015). O filme ainda tem o benefício de abordar tudo isso sem a apelação visual, trazendo uma espécie de horror-aventuresco que pode ser visto até por quem não é fã de contos aterrorizantes. Já em todos os outros momentos, o longa demonstra que tenta emplacar uma história muito maior da que sabe contar, e como solução recorre a tratar o espectador como idiota para sair como inteligente no fim das contas. O resultado é um filme improvável, que chega a surpreender de forma positiva, mas não o suficiente para tirar a sensação amarga de ter visto algo medíocre.

Nota do Crítico
Regular