Era Uma Vez em Nova York | Crítica

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Era Uma Vez em Nova York | Crítica

James Gray parte de um triângulo amoroso para traçar uma saga americana, em seu filme mais operístico

Marcelo Hessel
10.09.2014
17h09
Atualizada em
21.09.2014
15h25
Atualizada em 21.09.2014 às 15h25

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O título escolhido em português para o filme mais recente do cineasta James Gray, Era Uma Vez em Nova York (The Immigrant, 2013), sugere um épico, como os de Sérgio Leone, e sem dúvida a matriz estética do longa, evidente na direção de fotografia de Darius Khondji, são as sagas sobre a formação da América dos anos 1970 e 1980, como o próprio Era Uma Vez na América de Leone.

Embora emule essa grandiosidade, Era Uma Vez em Nova York é acima de tudo um drama sobre pequenos laços. Na trama, situada na década de 1920, a imigrante polonesa Ewa Cybulski (Marion Cotillard) aceita ser acolhida pelo cafetão Bruno (Joaquin Phoenix), na esperança de ajudar sua irmã a também entrar em Nova York. Paralelamente, o ilusionista Emil (Jeremy Renner), primo de Bruno, se envolve com Ewa e promete ser a sua salvação.

Enquanto Bruno encarna a versão mais cruel da terra das oportunidades, Emil personifica, com seus números de mágica, outra promessa: a da América como o mundo dos sonhos que se realizam. Nesse triângulo, Gray desenha as duas faces de uma mesma Nova York, o que torna as escolhas de Ewa mais angustiantes. Partindo desse particular - que funciona na maior parte do tempo como um drama de câmara passado em quartos amarelados da cidade - o diretor traça o seu painel histórico de tom operístico.

Não é o primeiro filme do cineasta sobre laços de família, embora ele diga em entrevistas que é o mais pessoal e autobiográfico. O que difere Era Uma Vez em Nova York de filmes seus como Caminho Sem Volta, Os Donos da Noite ou Amantes é que, por escolher uma trama de época, do período da formação da Nova York que conhecemos hoje nessas últimas três ou quatro gerações, Gray não oferece aos três personagens principais desta pequena saga a mesma herança cultural ou a mesma bagagem geracional dos heróis trágicos de seus dramas contemporâneos. Ewa, Bruno e Emil não têm onde se escorar.

De alguma forma, os três são o/a imigrante do título original - palavra em inglês cuja declinação permite os dois gêneros, masculino e feminino. Recomeçar na América implica uma nova vida, e essa "ausência de passado", por assim dizer, torna as decisões dos três ao mesmo tempo mais fáceis (refazer uma vida envolve criar novos valores a todo momento) e mais difíceis (sem a experiência, cada decisão traz novas dores).

O gênio de James Gray reside em estabelecer laços, portanto, onde eles não existem. É um processo civilizatório o de Era Uma Vez em Nova York, embora o filme trate de crimes hediondos, e diversos graus de relacionamento se constróem diante de nós: desde um momento de violência, diante de uma fotografia de família vista numa estante, até um instante de abandono, em que o mais trágico desses três fantasmas sem história de fato se revela ao espectador como um espectro, no reflexo de uma janela, a desaparecer.

Era Uma Vez em Nova York | Cinemas e horários

Nota do Crítico
Excelente!