Emma

Créditos da imagem: Working Title/Divulgação

Filmes

Crítica

Emma.

Com charme, química e acidez, nova versão do clássico de Jane Austen traz protagonista mais humana e implacável

Julia Sabbaga
11.08.2020
15h39

Ao publicar Emma, no início do século XIX, Jane Austen disse que havia criado uma protagonista que “ninguém além dela gostaria”. Bonita, inteligente e rica são os primeiros adjetivos de seu romance, e a figura de Emma é descrita, logo no começo, como alguém que nunca teve nenhuma preocupação na vida. Austen estava certa; é raro se envolver com uma personagem tão perfeitinha. Mas na última adaptação (de muitas) para às telas, a diretora estreante Autumn de Wilde soube construir sua protagonista de modo fiel, e ao mesmo tempo envolvente. Como? Ela focou precisamente em seus defeitos. 

Enquanto as adaptações de Douglas McGrath, liderada por Gwyneth Paltrow, e a versão moderna Patricinha de Beverly Hills, de Amy Heckerling, focaram nas graças e delicadezas de Emma, De Wilde temperou sua figura principal com mais teimosia e arrogância do que suas antecessoras. Um ser superior, que brinca de cupido com os indivíduos a sua volta e toma liberdades indevidas por sua elevada posição social, Emma é humana, e mais relacionável, exatamente porque pode ser tão odiável. 

Rica e privilegiada, Emma não tem interesse no matrimônio, e por isso passa seus dias brincando de casamenteira com a complexa gama de personagens que passam pelo seu universo. Depois do casamento de sua governanta e melhor amiga, ela se vê sozinha no mundo e resolve se ocupar da vida romântica de uma garota simples da escola vizinha, a Srta. Harriet. Entre sua nova confidente, seu cunhado, seu pai e figuras frequentes nas reuniões de sociedade, Emma se enxerga como superior e se aproveita de que todos a percebem do mesmo modo. Mas tudo isso não demora para se desenvolver em um cenário complicado de desentendimentos e infelicidades não-intencionadas.

Não havia escolha melhor de intérprete para a protagonistado que Anya Taylor-Joy. Tirando proveito de seu expressivo olhar - que se torna quase que um personagem à parte - para analisar, julgar ou refletir opiniões sem precisar de grandes discursos, a atriz equilibra perfeitamente graça e petulância se encaixando maravilhosamente bem no contexto criado pela diretora. Assim como Adoráveis Mulheres fez no ano passado, o novo Emma. não é necessariamente moderninho, mas clássico e refinado. O que faz com que tudo soe atual, apesar de seu contexto histórico, é a atemporalidade de seus personagens, que vêm ainda com uma acidez incomum para a época.

De Wilde, mais conhecida como fotógrafa e diretora de clipes de Beck, Raconteurs e Rilo Kiley, criou uma atmosfera que pode remeter ao mundo de Wes Anderson ou, talvez, à Maria Antonieta de Sofia Coppola (comparação fácil para qualquer tentativa mais ousada de representar uma época antiga). Esta versão de Emma se apresenta com uma fotografia delicada e cores que parecem ter saído diretamente de uma loja de doces. Isso sustenta bem o longa no início, enquanto o filme não engata, e os nomes que passeiam pelo mundo de Emma ainda são difíceis de memorizar. Mas a partir do momento em que a produção se familiariza ao seu espectador, ela flui bem mais na profundidade de seus personagens e os funcionamentos de sua sociedade. 

Um dos maiores deleites de Emma. é a sua vontade de desconstruir expectativas de época e gênero. Logo na primeira cena, o galante Sr. Knightley (Johnny Flynn) é visto nu e vulnerável, invertendo a tradição esperada para o mocinho da história. Do mesmo modo, um dos melhores modos de fazer de Emma mais humana e terrena é colocá-la de costas à lareira, levantando o vestido para aquecer suas partes traseiras. A cena, por mais curta que seja, serve perfeitamente à comédia de De Wilde, e pretende apresentar seus personagens refinados por trás dos panos finos e costumes rebocados.

É preciso elogiar a coleção de coadjuvantes de Emma., desde o performance certeira da evolução de Harriet de Mia Goth, até o humor sempre perfeito de Bill Nighy e a falante Sra. Bates de Miranda Hart. Mas seria necessário ir além para falar do longa de De Wilde, porque a diretora fez uma decisão perfeita de entregar humanidade àqueles tradicionais criados figurantes, que ficam no pano de fundo de todo filme do começo do século XIX. Aqui, por mais discretos que sejam, eles entregam uma sutileza afiada, parecendo superiores aos personagens centrais e suas futilidades. 

De Wilde refrescou a história de Emma com uma direção cativante, e aproveitou-se maravilhosamente bem da química de seus protagonistas, principalmente na inesquecível cena de dança (de dar inveja à uma sequência semelhante da versão de Orgulho e Preconceito de Joe Wright). Aqui, a diretora vai contra a tradição de protagonistas femininas agradáveis e encontra sua personagem ao explicitar seus erros. Sua Emma é perfeita para o mundo atual porque é falha, e como é bom assistir a história de alguém teimoso, arrogante e errado, que se enxerga, se redime, e merece seu final feliz. Para quem acompanhou os inquietos olhos de Emma passeando e julgando o mundo ao seu redor pelas duas horas de filme, certamente se deliciará com a encantadora última cena.

Nota do Crítico
Ótimo