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Em Ritmo de Fuga | Crítica

Edgar Wright mantém assinatura, mas leva seu cinema para um novo nível

Natália Bridi
28.07.2017
02h21
Atualizada em
28.07.2017
19h19
Atualizada em 28.07.2017 às 19h19

A paródia é a base da obra de Edgar Wright. Zumbis, policiais e games já serviram às suas histórias, sempre povoadas por personagens irônicos e versados na cultura pop. Em Ritmo de Fuga, seu primeiro filme depois da traumática passagem pelo Marvel Studios (entenda), mantém essa assinatura, mas leva o cinema de Wright para um novo patamar.

A premissa é simples. Baby (Ansel Elgort) é um excêntrico e habilidoso motorista que escuta música o tempo todo para abafar o zumbido causado por um acidente de carro na infância; ao seu redor transitam as mais variadas personalidades de criminosos e a garota dos seus sonhos. O que torna, Em Ritmo de Fuga especial, porém, não é o seu roteiro, que usa estruturas clássicas de romance, assalto e vingança, mas a maneira como Wright transforma som em narrativa, ação e movimentos de câmera.

Para montar seu musical, o diretor usa cenários como peças da coreografia em torno dos personagens:  grafites acompanham a letra de “Harlem Shuffle” (Bob & Earl) e máquinas de lavar são sincronizadas ao som de “Debora” (T.Rex). Como a agulha de uma vitrola, os carros conduzidos por Baby transformam as ranhuras do asfalto em som. As manobras se misturam aos acordes, assim como os disparos de uma metralhadora seguem a batida de “Hocus Pocus” (Focus).

É uma experiência surpreendente e bem-humorada, encorpada por um elenco em sintonia com seu diretor. Wright segue Baby com precisão, dentro e fora do carro, e Ansel corresponde a atenção com uma performance nem tão inocente, nem tão destemida, completamente ciente do seu corpo e dos espaços ao seu redor. Doc (Kevin Spacey) e seus capangas - Buddy (Jon Hamm), Griff (Jon Bernthal), Darling (Eiza González), Bats (Jamie Foxx), Eddie (Flea), entre outros - são a ponte entre o espectador e os talentos do motorista em diálogos rápidos e cheios de referências. Já Debora (Lily James) encarna perfeitamente o outro lado, representando a alternativa romântica para a violenta vida de Baby.

Wright executa bem esse contraste ao não fugir nem do gore, nem do emotivo. Como em um musical tradicional, essa realidade exagerada serve de terreno para o desenvolvimento dos personagens, fazendo de cada canção (e, no caso, cena de ação) uma experiência catártica. Assim, mesmo dentro de uma estrutura simples de mocinhos, bandidos e romance, existe evolução. Nenhum personagem termina a história da mesma forma que a começou.

Edgar Wright tinha personalidade demais para a Marvel e esse é o atestado de Em Ritmo de Fuga. Com um orçamento modesto (US$ 34 milhões) e liberdade criativa, o diretor levou a sua marca paródica para longe da sua zona de conforto (o Reino Unido e a colaboração com Simon Pegg e Nick Frost), mantendo intacta o seu conceito. Trata-se da vingança perfeita. Uma volta por cima rápida, inovadora e lucrativa.

Nota do Crítico
Excelente!