Ela Disse, Ele Disse

Créditos da imagem: Ela Disse, Ele Disse/Globo Filmes/Reprodução

Filmes

Crítica

Ela Disse, Ele Disse

Inspirado em livro de Thalita Rebouças, filme trata de assuntos comuns da adolescência e encontra espaço para falar de representatividade

Camila Sousa
07.10.2019
14h31

As comédias adolescentes são um clássico do cinema moderno. Normalmente descompromissados e com temas comuns dessa fase da vida, esses filmes são conhecidos por marcar gerações, que lembram com nostalgia de quando assistiram às histórias pela primeira vez. Logo, inovar quando se trata de comédias adolescentes não é tarefa fácil. As produções que se dão bem nesse quesito são aquelas que mantêm características clássicas, trazendo novos olhares que retratam a geração em questão. É isso o que torna Ela Disse, Ele Disse, inspirado no livro homônimo de Thalita Rebouças, um filme relevante e gostoso de assistir.

A história é clássica, replicando os já citados elementos da juventude: Rosa (Duda Matte) vai começar o ano letivo em uma nova escola e seu maior objetivo é se enturmar e encontrar amigos. Essa é a mesma ideia de Leo (Marcus Bessa), que também é calouro do local. O filme faz um trabalho interessante ao mostrar as diferenças sobre como meninos e meninas encaram essa situação. Enquanto Rosa fica extremamente preocupada com o visual e tem uma visão pessimista de como será o dia, Leo não é muito vaidoso e acredita que fará amigos rapidamente. Apenas com essa sequência o filme já prova como as garotas sentem mais pressão desde muito jovens.

O núcleo escolar do filme, dirigido por Cláudia Castro, também rende bons momentos, especialmente com o trio de amigas que Rosa forma com Carol (Giulia Ayumi) e Luana (Maria Cecília Warpe). Apesar do crush da protagonista por Leo tomar grande parte das conversas entre as garotas, elas também encontram momentos de diversão que não envolvem garotos, algo que ajuda Rosa a se entender melhor e encontrar seu lugar dentro da escola. O núcleo fica especialmente divertido pela atuação de Ayumi, que encarna a amiga sincerona, que diverte ao falar algumas verdades veladas, especialmente para Júlia, personagem de Maísa Silva e “vilã" da história.

Aqui vale citar como a produção desconstrói o conceito que seria esperado de uma antagonista de filme adolescente. Júlia é mostrada como uma jovem cheia de inseguranças, como todos os outros, que usa seu visual e popularidade dentro da escola para esconder isso. Ela Disse, Ele Disse se desvia do conceito de “vingança final” ou de fazer Rosa ficar acima de Júlia, como uma compensação por tudo o que ela sofreu ao longo da história. A produção acerta ao mostrar os sentimentos das duas personagens e dar à “vilã” uma redenção que não soa forçada, mas sim totalmente condizente com uma adolescente que ainda está descobrindo como lidar com sua autoestima. Outra atualização trazida pelo filme é como Leo lida com os valentões da escola. Ao ser confrontado com uma possível briga, o rapaz fica claramente incomodado, mostrando que nem todo homem precisa gostar de resolver seus problemas com violência.

O que torna Ela Disse, Ele Disse um filme interessante é como ele traz um frescor ao falar também de representatividade. Em uma sequência final moderna e cheia de assuntos relevantes, a produção entrega ao público a mensagem de que o amor, em todas as suas formas, merece ser celebrado e não escondido. Colocar isso de forma tão leve e natural em um filme adolescente é algo digno de aplausos e que combina com uma geração que se afasta cada vez mais de conceitos ultrapassados. Isso, aliás, é mostrado claramente na produção pela diretora Madalena, personagem da talentosa Maria Clara Gueiros, que representa todos os conceitos antiquados do que é “certo” ou “errado” e é confrontada para atualizar sua visão de mundo. Com tantos temas interessantes, o longa com Maísa Silva e Duda Matte prova que tem muito a ensinar aos jovens - e também a alguns adultos.

Nota do Crítico
Ótimo