El Ser Querido tem atuação da vida (e de Oscar) de Javier Bardem
Novo filme de Rodrigo Sorogoyen foi exibido no Festival de Cannes
Créditos da imagem: Le Pacte
As duas falas mais emblemáticas de El Ser Querido tratam, claro, sobre o cinema. Uma é dita por Esteban Martínez (Javier Bardem, no que está destinada a ser a atuação da sua vida), um renomado mas complicado diretor de cinema que retorna à Espanha para rodar seu novo projeto depois de anos de sucesso de Hollywood, e outra é dita por Emilia Vera (Victoria Luengo), uma atriz cuja carreira não passa de papéis coadjuvantes na televisão e que, ninguém sabe, é a primeira filha do cineasta. Esteban a teve com uma atriz de seu primeiro longa, um projeto que o lançou para o mundo. Agora, ele retorna para a vida de Emilia com uma proposta chocante: entrar para o elenco de uma grandiosa produção.
A fala de Esteban vem no primeiro momento em que ele elogia a atuação da filha no set. De acordo com o realizador, ela atuou bem porque escondeu seus sentimentos pessoais e deixou a personagem tomar conta da cena. É um conselho que não compramos, apesar da resposta positiva de Emilia na hora. Arte, Esteban sabe muito bem, se faz trazendo nossa bagagem para o que produzimos, e ele mesmo o faz ao usar seu novo filme, o fictício Deserto, para se aproximar da filha a quem nunca conheceu direito.
A segunda fala, que vem de Emilia, acontece quando ela encontra a família do pai. Sua segunda esposa, uma editora de livros, e dois filhos pequenos vêm visitar o set num fim de semana. Talvez nervosa, ela se embriaga o suficiente para que os adultos notem, mas não para que fique óbvio para as crianças. Por conta de conversas que testemunhamos entre os dois, sabemos que Esteban já foi a encontros com a filhas em situação parecida ou até pior, e se isso não fosse o suficiente para atiçá-lo, a frase de Emilia é: “Há coisas mais importantes que o cinema na vida, não é mesmo?” Ela direciona o questionamento para a nova parceira de seu pai, mas é ele quem recebe a mensagem.
Dirigido e escrito por Rodrigo Sorogoyen com inspirações reais, El Ser Querido está longe de ser o primeiro longa a abordar a ideia de famílias que processam, evitam e expressam suas dores através da arte. Quando ele foi anunciado na seleção do Festival de Cannes 2026, críticos rapidamente apontaram a aparente semelhança entre sua premissa e a do filme mais elogiado do evento no ano anterior – Valor Sentimental. El Ser Querido, porém, é mais bagunçado e turbulento, e num bom sentido. Emocionalmente, estes personagens experimentam um vai e vem que frequentemente os reduz às suas piores versões, e formalmente, Sorogoyen se mostra disposto a experimentar com as próprias técnicas do cinema para refletir o filme de Esteban em seu próprio longa.
Trata-se menos de uma jogada metalinguística e mais de um espelho. Trocando entre película e digital, alterando a razão de aspecto e passeando entre o colorido e preto-e-branco, Sorogoyen frequentemente usa a lente de Esteban para retratar o seu drama de pai e filha. O áudio da produção, seus cortes brutos e outros elementos do filme dentro do filme se revelam ferramentas perfeitas para que El Ser Querido reflita a intenção de seu autor dentro da própria ficção. Nunca confundimos as camadas de realidade, mas graças a esses ecos, vemos os mesmos padrões se repetindo e a força do filme se revela irresistível, especialmente para Sorogoyen. É justo dizer que suas brincadeiras com estilo às vezes ganham proporções grandes demais, e ele começa a experimentar por experimentar. Por si só, isso não seria um problema, mas como antes o que tinha significado passa a parecer mais um exercício técnico do que algo intencional, alguns destes toques mais prejudicam do que ajudam.
Felizmente, independente da saturação, foco ou material usado, no centro da imagem estão sempre os rostos de Bardem e Luengo. Dois atores entregues aos personagens, eles abraçam sem reservas a feiura, as cicatrizes e os charmes de seus personagens. No caso de Bardem, impressiona a sua disposição a não tentar redimir Esteban. Claro, seu carisma muitas vezes é irresistível, seja para os membros da produção de Deserto ou para Emilia – e em resposta Luengo sempre sabe quando baixar a guarda de sua personagem, e quando contra-atacar com a ira honesta e genuína de alguém que viveu uma vida sendo escanteada. Mas Bardem não maquia o lado feio de seu personagem: suas expectativas injustas, sua impaciência e seu egocentrismo temperam até mesmo os momentos mais gentis de Esteban.
Isso significa que quando Emilia finalmente consegue passar pelas defesas do pai, a emoção crua que Bardem coloca em tela surge como genuína, honesta e até chocante. Este momento é construído por Sorogoyen desde o primeiro minuto de El Ser Querido, que começa com a voz de Esteban antes mesmo de mostrar seu rosto. É como se ele quisesse tanto dominar o filme que não pode nem esperar a primeira imagem – um close de seu rosto. É curioso como a última imagem do longa, um contracampo de um plano parecido com este, simboliza uma espécie de reação por parte de Sorogoyen. El Ser Querido termina com um take de Deserto. Um que agrada Esteban. É só ali, onde ele cria a fantasia que quer, que ele pode encontrar satisfação.
Crítica escrita em 17 de maio no Festival de Cannes 2026. El Ser Querido estreia em breve no Brasil.
El Ser Querido
El Ser Querido
Excluir comentário
Confirmar a exclusão do comentário?
Comentários (0)
Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.
Faça login no Omelete e participe dos comentários