Dumplin

Créditos da imagem: Dumplin'/Netflix/Divulgação

Filmes

Crítica

Dumplin

Adaptação de livro traz música country, ótimas atuações e mensagens certeiras em uma mistura agradável e reconfortante de se assistir

Matheus Bianezzi
14.02.2019
22h33
Atualizada em
15.02.2019
09h16
Atualizada em 15.02.2019 às 09h16

Em sua superfície mais externa, Dumplin parece ser apenas mais uma produção adolescente com alguns preciosos argumentos sobre aceitação. De fato ela não é revolucionária em nenhum aspecto - porém, o sentimento que passa é tão genuíno e leve que, ao subirem os créditos, é possível se pegar pensando como a vida das personagens continuará se desenrolando fora das telinhas. É um filme de camadas - e todas elas são cativantes, assim como uma obra que visa o público jovem tem de ser.

Baseado no livro de mesmo nome da escritora Julie Murphy - que inclusive faz uma brevíssima aparição -, a trama acompanha a jovem Willowdean Dickson (Danielle MacDonald), uma garota fora dos padrões que cresceu escutando e tendo como sua grande referência a cantora Dolly Parton. Tal herança foi deixada pela falecida tia Lucy (Hilliary Begley), sua grande figura materna. Diferente dela que sempre a incentivou, sua mãe, Rosie (Jennifer Aniston), por ser uma prestigiada miss e viver em uma realidade tão diferente, nunca conseguiu criar uma verdadeira ligação com a filha. Como forma de protesto, a menina decide se inscrever no concurso de beleza da cidade - o mesmo que Rosie ganhou décadas atrás.

Tendo uma temática adolescente, teria sido muito fácil se ater unicamente em discussões e plots menores. O enredo poderia ter sido focado na relação conturbada de Willow com sua mãe; na competição que o concurso oferece; ou até mesmo em uma subtrama romântica - presente mas felizmente explorada de uma forma bastante secundária. Ainda bem que tanto as roteiristas quanto a prestigiada diretora Anne Fletcher (A Proposta, Vestida para Casar) não decidiram ir pelo atalho mais simples. O enredo é sobre a jornada de aceitação de Will e suas amigas.

Um dos pontos mais interessantes da obra é que ela não cai em um dos maiores clichês do gênero: a polarização. As meninas que querem de fato participar do concurso e representam os maiores padrões estéticos não são tratadas como vilãs. Isso não significa que o filme legitime o bullying de forma alguma, mas passa a ideia que o mais importante é aceitar a condição de cada um, não importando nenhuma característica física, e buscar ser feliz consigo mesmo. Esse discurso é bem incorporado pela personagem Ellen Driver (Odeya Rush), que se encaixa nesse padrão, mas não deixa de ser amiga de Will e lutar por igualdade.

O filme pode soar um tanto quanto puramente panfletário dentro de um enredo óbvio, mas, graças a atuações convincentes e sinceras, ele não se limita a isso. Não seria uma surpresa caso a australiana Danielle MacDonald começasse a ganhar cada vez mais espaço em grandes produções. A atriz de 27 anos entrega uma protagonista tão leve quanto o enredo, mas não por isso rasa. Sua interpretação transborda sentimento e oferece um contraponto a altura da já prestigiada Jennifer Aniston. Vivendo a mãe de Will, é brilhante como a antiga estrela de Friends enaltece tudo que toca, misturando atuações dramáticas com um viés cômico. A relação das duas oferece algumas das melhores cenas e, assim como em A Proposta, principal trabalho da carreira da diretora, não é errado dizer que a dupla de intérpretes alavanca o filme para um outro patamar - muito melhor do que atingiria por si só.

Lado a lado com as atuações, outro ponto merece destaque: a trilha sonora é inteiramente composta pela maior expoente da música country mundial, Dolly Parton. Ao mesmo tempo que suas músicas costuram e engrandecem a narrativa, as letras trazem mensagens de autoconhecimento e empoderamento feminino, sendo utilizadas pelas personagens como mote incentivador de cada ação. Como a história se passa em uma pequena cidade do Texas, um dos estados mais conservadores dos Estados Unidos, a escolha pela presença de Parton é uma crítica por si só. Embora a cantora não apareça, sua essência é muito bem representada pelo núcleo drag queen, que funciona no melhor estilo Queer Eye, dando conselhos e sendo um dos pilares de Willow e suas amigas. Aliás, não teria feito mal nenhum uma aparição do Fab 5, não é mesmo?

Embora não seja um divisor de águas no mundo dos dramas adolescentes, Dumplin é sem dúvida um ótimo entretenimento e entrega sua mensagem com eficácia. Assim como diria Dolly Parton, descubra quem você é e seja você mesmo de propósito. Tendo isso em mente, o sorriso de satisfação ao final do longa vem de forma natural.

Nota do Crítico
Ótimo