Dumbo

Créditos da imagem: Disney/Divulgação

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Crítica

Dumbo

Tim Burton expande narrativa do original, promovendo um espetáculo visual com tom mais otimista

Mariana Canhisares
26.03.2019
13h03
Atualizada em
26.03.2019
14h40
Atualizada em 26.03.2019 às 14h40

A escolha de Tim Burton para dirigir o live-action de Dumbo foi uma das decisões mais acertadas da Disney nessa era nostálgica de retorno aos seus clássicos. No original, a história do elefantinho de orelhas grandes reflete sobre a aceitação e o aplauso ao diferente com um toque de estranheza e uma acidez aconchegante, que estão no DNA das obras do cineasta. Porém, no novo filme, Burton não se acomoda nas obviedades que tornam essa união tão harmoniosa já no papel. Em vez de fazer um mero remake, ele expande a narrativa, trazendo uma visão mais otimista e honesta do que a animação dos anos 1940.

Sem os animais falantes, a jornada de Dumbo para reencontrar a Sra. Jumbo e finalmente sentir-se parte de um grupo agora é acompanhada pelos irmãos Farrier, crianças que estão crescendo no circo e enfrentando seus próprios problemas. Mais do que não querer se exibir para uma plateia, Milly (Nico Parker) e seu irmão Joe (Finley Hobbins) precisam lidar com a perda da sua mãe e a volta do seu pai que, depois da guerra, não parece mais o mesmo. É a identificação com o filhote que os deixa decididos a ajudá-lo e, indiretamente, os fazem aprender a lidar melhor com suas próprias dores.

Criar esse paralelo entre os dramas de Dumbo com seus pares humanos é um recurso inteligente do roteiro de Ehren Kruger para dar mais camadas a uma história originalmente áspera e determinista, até na sua fofura. Mas isso funciona até certo ponto. Ainda que não falte carisma ao elenco e, portanto, seja fácil torcer pelos Farrier e os membros do circo dos Irmãos Médici, o desenvolvimento dos personagens deixa um pouco a desejar. Se por um lado entende-se muito bem Dumbo, Milly e Joe, o pai das crianças, Holt (Colin Farrell), e a artista Colette (Eva Green) ficam pelo caminho. As dores e as intenções de ambos demoram a sair do discursivo para serem efetivamente mostradas. Assim, a relação entre o público e os dois personagens fica muito superficial, mesmo que estejam diante de situações profundamente humanas. Entre os adultos, somente as figuras de Danny DeVito e Michael Keaton, cada qual na sua caricatura, são bem resolvidas e, por isso, roubam a cena.

No entanto, é inegável como Dumbo se beneficia da nova configuração narrativa de Kruger. Ao não encerrar o filme no mesmo ponto do original e, na realidade, expandir sua trama, o live-action pode tratar abertamente dos temas negligenciados pela animação que, querendo ou não, estão no centro da trajetória do protagonista. Evidenciando os maus-tratos aos animais e o cinismo que a gerência do circo pode ter -  simbolizados na figura de V. A. Vandevere (Keaton) -, roteirista e diretor são mais honestos com o público e dão um tom otimista à história.

Embora mude o encadeamento de eventos aqui e ali, Burton sabe equilibrar seus toques pessoais com as referências ao original. Ora com humor, ora com discrição, o diretor representa de alguma forma os momentos emblemáticos do primeiro filme. Até mesmo a sequência alucinada dos elefantes rosas encontra espaço no live-action - e sem precisar embebedar o filhote.

O espetáculo visual arremata de vez a experiência de Dumbo. Toda a construção dos circos, isto é, a diferenciação entre a experiência decadente proposta por Max Medici (DeVito) e a grandiosidade da Dreamland de Vandevere levam o espectador a embarcar nos bastidores do picadeiro e na empolgante hora do show. Como consequência, não apenas criam uma bela ambientação, com suas cores e coreografias, como dão peso para as experiências dos personagens.

Assim, mais do que embarcar na nostalgia vazia, Tim Burton justifica por que era interessante revisitar Dumbo quase 80 anos depois. Em um tempo de tanta intolerância, é importante lembrar que, em meio à cretinice banal do que é norma, existe uma magia no diferente. E é sempre bom celebrá-la.

Nota do Crítico
Ótimo