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Drive | Crítica

Ryan Gosling é o Herói Americano, com direito à versão moderna da palha de trigo no canto da boca

Marcelo Hessel
15.10.2011
15h38
Atualizada em
29.06.2018
02h37
Atualizada em 29.06.2018 às 02h37

"Você provou ser um herói de verdade e um ser humano de verdade", diz a canção do College, "A Real Hero", que encerra Drive, o filme que deu ao dinamarquês Nicolas Winding Refn (Bronson, O Guerreiro Silencioso) o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes. Herói, sem dúvida. Já ser humano...

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Ryan Gosling interpreta em Drive menos um "ser humano de verdade" do que um ideal de herói, um action figure no sentido mais literal do termo. Em inglês, drive não significa apenas dirigir, quer dizer também impulso, motivação. O personagem de Gosling é uma figura movida pela ação - e o seu lugar de pertencimento, portanto, não seria outro senão aquele cinema que desde sempre gestou heróis que "fazem o que precisa ser feito", o americano.

Refn presta uma homenagem ao imaginário hollywoodiano da forma mais direta possível: elegendo um dublê como protagonista, uma garçonete de diner como donzela e um mafioso judeu como vilão. São não apenas emblemas do cinema americano, como também se portam como tal: a donzela cria um filho sozinha, o mafioso coleciona facas e o dublê veste camisas e jaquetas de brim. Pra ser mais típico, o herói só precisaria da palha de trigo no canto da boca, como um John Wayne. Na falta da palha, o dublê se contenta com palitos de dente. E o seu cavalo é o do Ford Mustang.

É um dublê sem nome, obviamente, como se exige de um Modelo de Herói. Na trama, entre trabalhos em Hollywood e em uma oficina mecânica, ele ocasionalmente serve de motorista de fuga para quem contratar seus serviços. Não questiona a encomenda, "faz o que precisa ser feito". Mas quando decide ajudar o marido (Oscar Isaac) da sua vizinha (Carey Mulligan) em um assalto suspeito, o dublê se envolve num esquema que foge à sua moral e ao seu controle.

Tudo em Drive funciona em função da imagem do herói, mostrar como ela se transforma em decorrência da ação. Então temos efeitos de fusão (o rosto de Gosling sobreposto a Los Angeles, aos carros), de luz (ora a silheta e a sombra, ora a luz dos faróis na altura dos olhos) e de câmera (o plano de Gosling com o rosto ensanguentado, saindo de cena, recuando à escuridão, é superteatral).

É evidente o talento do dinamarquês para filmar Gosling sempre pensando numa iconografia (o ator aparece com frequência, por exemplo, nos cantos do Scope, o que reforça o seu caráter de justiceiro solitário), e o galã reage bem a essa proposta por ser, antes de mais nada, uma figura altamente fotogênica, que se presta à idealização.

Drive é fetiche puro, enfim. Essa é a sua intenção e também a sua limitação. Dá facilmente para defendê-lo (Refn conseguiu criar um herói de presença e de impacto, e a Steady Clothing vai vender a jaqueta do escorpião como água) e dá também para recusá-lo (Quentin Tarantino e Robert Rodriguez fizeram homenagens iconográficas parecidas em À Prova de Morte e Machete de um jeito mais divertido e menos poser). Independente do julgamento, Drive merece ser visto.

Drive
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Drive

Ano: 2011

País: EUA

Classificação: 16 anos

Duração: 100 min

Direção: Nicolas Winding Refn

Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Christina Hendricks, Albert Brooks, Bryan Cranston, Ron Perlman, Andy San Dimas, Oscar Isaac, Kaden Leos, Jeff Wolfe, James Biberi, Russ Tamblyn, Joe Bucaro III, Tiara Parker, Tim Trella, Jim Hart, Tina Huang, John Pyper-Ferguson

Nota do Crítico
Bom

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