Ewan McGregor em Doutor Sono

Créditos da imagem: Doutor Sono/Divulgação

Filmes

Crítica

Doutor Sono

Feito pelo criador de A Maldição da Residência Hill, filme é terror sólido, mas perde força por tentar conciliar desentendimento entre Stanley Kubrick e Stephen King

Arthur Eloi
07.11.2019
15h02

O Iluminado é uma das obras definitivas do terror, tanto do cinema quanto da literatura - mas também é um dos maiores casos de desentendimento entre autores desses dois meios. Stephen King escreveu um clássico em 1977 sobre o declínio de uma família em meio à acontecimentos sobrenaturais, mas quando Stanley Kubrick comandou a adaptação para as telonas em 1980, fez com uma abordagem muito mais pé no chão, com uma boa aliviada nos elementos surreais do conto.

O escritor publicamente repudiou o trabalho do cineasta, optou por fazer sua própria adaptação (em forma de minissérie por Mick Garris) e também escreveu uma continuação em 2013, Doutor Sono. Com o tempo toda essa disputa se tornou apenas uma trívia, já que o público geral entendeu ambos os feitos como entidades diferentes. O que acontece, então, quando alguém acidentalmente ressuscita essa briga ao tentar continuar ambas as versões?

A adaptação cinematográfica de Doutor Sono carrega esse conflito em seu cerne. Escrita e dirigida por Mike Flanagan (A Maldição da Residência Hill), a trama acompanha uma versão adulta do garoto Danny Torrance - interpretada por Ewan McGregor -, mais de 30 anos após os acontecimentos do Hotel Overlook. Traumatizado, ele tenta calar seus poderes com bebidas e drogas, mas se vê tirado da vida decadente ao se mudar para uma pequena cidade do interior com o objetivo de começar do zero. Após se recuperar, ele passa a ganhar a vida trabalhando como enfermeiro em um hospital, usando seus poderes como forma de confortar aqueles prestes a morrer. O problema é que seu Brilho chama a atenção de um grupo chamado o Verdadeiro Nó, que se alimentam da essência desses humanos especiais como Danny, e também uma poderosa menina chamada Abra (Kyliegh Curran).

Crise existencial

A trama segue a risca a obra de King, mas adota a estética de Kubrick por inteira. Isso vai desde dos movimentos de câmera, que tentam imitar os do falecido cineasta, até uma ambiciosa reconstrução do Hotel Overlook. O nível de homenagem é impressionante, mas é o que causa confusão e perda de identidade ao filme. Ao se colocar como sequência ao clássico oitentista, deixa a desejar na explicação de inúmeros elementos que ficaram de fora da obra original (como os limites e capacidades do Brilho). Mas se posicionar como adaptação literária também não ajudaria, já que dedica boa parte de seu tempo de tela imitando cenas icônicas do longa - e muitas vezes sem tanto peso narrativo.

Quando apresenta novos atores para imitar as excelentes performances de Jack Nicholson e Shelley Duvall, Doutor Sono adentra o território de fan film, o que fica ainda mais evidente nos momentos finais quando os personagens caminham pelos corredores do Overlook com um fascínio de fã, observando reencenações de momentos marcantes como em uma atração de parque de diversões. A discrepância entre versões de O Iluminado é muito do que define a obra no imaginário popular, portanto tentar encontrar um meio termo soa como um esforço vazio, que resulta em um longa sem tanta personalidade.

A Maldição do Hotel Overlook

Os momentos que dão certo, porém, vêm pela habilidade de Flanagan. O criador de A Maldição da Residência Hill traz consigo membros da equipe de sua série na Netflix, do diretor de fotografia às diretoras de casting. Assim, quando o cineasta não está perdido em sua homenagem ao Kubrick, entrega boa direção e planos criativos e bem construídos que lembram bastante o seriado.

Não é coincidência que esses melhores momentos geralmente são estrelados por Rose, a Cartola. A vilã de Rebecca Ferguson é a principal líder do Verdadeiro Nó, e persegue os protagonistas com sensualidade e intimidação mística. Mesmo com Ewan McGregor forte no papel de Danny, é a personagem que rouba toda cena em que dá as caras. Uma delas, por exemplo, mostra a antagonista invadindo os sonhos de Abra - sem saber que caiu em uma armadilha da garota. As duas se enfrentam em um ambiente que representa a mente humana como uma biblioteca, com ambas brigando pelo conhecimento da outra.

Momentos do tipo firmam que Doutor Sono funciona quando tenta criar a própria identidade, mas a experiência completa soa mais como um projeto com medo de sair da sombra de O Iluminado. Flanagan é um cineasta experiente com um ótimo elenco em mãos e uma boa trama original. Isso resulta em um terror sólido, mas que não brilha tanto quanto poderia.

Nota do Crítico
Bom