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Créditos da imagem: Universal Pictures/Divulgação

Filmes

Crítica

Dolittle

Nova versão das aventuras do doutor tem o brilho dos filmes desgovernados

Marcelo Hessel
20.02.2020
10h07

Não deixa de ter sua beleza que Hollywood ainda faça em 2020, em meio a todos os seus algoritmos e seus investimentos sem risco, um blockbuster desgovernado como Dolittle. Um minuto de silêncio aqui para o executivo que autorizou o despejo de US$ 175 milhões numa comédia cujo clímax é um impasse de prisão de ventre (com direito ao esquema de cores do vermelho para o azul, como nos comerciais de laxante). Esse executivo não é menos que um herói.

Na teoria não é difícil entender o apelo do projeto, porque Dolittle junta a obsessão das adaptações de propriedades intelectuais (antes do filme com Eddie Murphy, Dolittle tinha décadas de livros, programas de rádio, animações) com o melhor que o star system pode oferecer hoje - no caso, surfar na popularidade de Robert Downey Jr. pós-MCU em busca de uma nova franquia de comédia-família e aventura. Dolittle tinha o potencial de ser um novo Piratas do Caribe sem a toxicidade do nome de Johnny Depp, e inclusive a trama preserva minimamente a mesma dinâmica (Dolittle aqui como um novo Jack Sparrow pageando/antagonizando com dois jovens coprotagonistas enamorados).

Se a receita desanda rapidamente é muito por conta da direção vacilante de Stephen Gaghan, que depois dos primeiros testes de público foi substituído em refilmagens pelo igualmente inepto Jonathan Liebesman. O adolescente Harry Collett interpreta Tommy Stubbins para servir de canal de entrada do público no filme, antes de conhecermos Dolittle propriamente, e a ideia é que o espectador se afiance no olhar puro e maravilhado de Stubbins para também chegar desarmado, sem cinismo. Não há boa vontade, porém, que resista ao fluxo truncado da decupagem malfeita de Gaghan; até o fim Dolittle será uma sucessão de planos mal encadeados. Não é nem questão de errar no feijão com arroz, o filme desconhece os próprios fundamentos da linguagem.

Ainda assim, dá para reconhecer em Dolittle o brilho do desgoverno. Se o filme de 1967 se tornou ao longo dos anos uma pérola cult por conta do seu humor (a cena em que Rex Harrison arremessa a foca do penhasco como se fosse uma criança é facilmente encontrada no Twitter), este remake tem potencial para trilhar um caminho parecido - pelo sotaque bizarro de Downey Jr., pelos exageros da reconstituição de época, pelo clímax todo do impasse intestinal. Se este Dolittle tivesse um doutor que falasse em versos rimados como o de 1967, ao invés de recusar sua mais que evidente vocação para o musical galhofa, uma pérola de fato talvez se descobrisse aí em meio ao estrago.

(E não custa lembrar que Downey Jr. já fez Chaplin no cinema e seu talento para a pantomima e a dança não passam despercebidos na expressão corporal e no gestual de Tony Stark.)

No mais, é muito provável que esta adaptação seja rechaçada pelo público não pela inépcia na direção e sim pelas suas escolhas despudoradas de humor e exagero, da mesma forma que muitos blockbusters do fim do século foram jogados na lata do lixo da história por serem testemunhos de um anacronismo, como Batman & Robin e As Loucas Aventuras de James West - dois filmes que talvez tivessem mais sorte, a exemplo deste Dolittle, nos cinemas do começo dos anos 1960, auge da chamada comédia maluca.

O que não deixa de ser uma grande ironia porque o que não falta em Dolittle é fidelidade com o material - não só aos livros como também ao filme de 1967, de onde a nova versão tira sua matriz. Temos aqui um exemplo do que realmente importa na era da cultura do fã: não é a fidelidade ao material e sim a fidelidade à nostalgia. Quem procurar este Dolittle com base na comédia com Eddie Murphy vai se decepcionar porque, desde a ambientação vitoriana até os cacoetes de Downey Jr. (cujo doutor tem sotaque escocês talvez porque o Dolittle original supostamente se inspirava no cirurgião escocês John Hunter), esta versão arrisca um resgate de elementos muito mais velhos do que a memória afetiva imediata do público de hoje acessa.

Mais uma decisão criativa corajosa (e obviamente equivocada) para a conta deste filme sem solução, então.

Nota do Crítico
Regular