Dois Papas

Créditos da imagem: Dois Papas/Netflix/Divulgação

Filmes

Crítica

Dois Papas

Fernando Meirelles comanda Jonathan Pryce e Anthony Hopkins em conversa que vai além da religião

Natália Bridi
14.09.2019
19h14
Atualizada em
14.09.2019
19h37
Atualizada em 14.09.2019 às 19h37

Há líderes religiosos cuja importância supera os limites das suas respectivas doutrinas. É assim com o Dalai-lama, é assim com o Papa. Com a morte de João Paulo II, porém, a Igreja Católica perdeu uma das suas figuras mais populares. Seu substituto, Bento XVI, foi eleito pelos cardeais que buscavam o retorno de valores mais conservadores. Ironicamente, foi o próprio Papa que percebeu o erro dessa estratégia e, entre os escândalos de uma igreja que perdia fiéis e acobertou casos de pedofilia, decidiu renunciar. Mas antes era preciso encontrar um substituto. 

Desse processo pouco usual, o roteirista Anthony McCarten estabelece os diálogos de Dois Papas, filme dirigido por Fernando Meirelles e estrelado por Jonathan Pryce (Papa Francisco) e Anthony Hopkins (Papa Bento) sobre as conversas que levaram a eleição do cardeal progressista argentino Jorge Mario Bergoglio ao posto máximo da igreja. 

As diferentes visões de Bento e Francisco sobre variados assuntos — da doutrina católica a futebol — tornam o filme cativante, mesmo para quem não é religioso. Os dois não concordam em nada, mas encontram uma via de respeito, um belo exemplo no atual contexto. Pryce e Hopkins tornam a experiência ainda mais interessante, encontrando o tom para equilibrar senso de humor com a seriedade dos assuntos tratados, sempre entre a santidade dos seus cargos e o mundano. Uma pena que problemas graves, como a negligência em relação às denúncias de pedofilia, não cheguem a ser aprofundados, deixando o tom geral mais leve e pitoresco.

Atrapalha também as escolhas da fotografia de César Charlone, parceiro de longa data de Meirelles, que muda de lentes, câmeras e ângulos constantemente. A ideia, parece, é reproduzir o imediatismo midiático que acompanha a nomeação papal. Porém, quando se está no meio de uma conversa fascinante, a escolha se torna um incômodo. 

Ainda assim, essa estética tira do filme o épico que a trama poderia impor. Dois Papas trata dos ritos milenares de uma religião, mas não se limita ao universo católico apostólico romano. O que a igreja distância por pompa e tradição, o filme aproxima por revelar o óbvio. Mesmo que o Papa não seja pop, ele é apenas humano.

*Dois Papas estreia em 20 de dezembro na Netflix.

Nota do Crítico
Bom