Dois Irmãos - Uma Jornada Fantástica

Créditos da imagem: Pixar/divulgação

Filmes

Crítica

Dois Irmãos - Uma Jornada Fantástica

Simples, animação da Pixar não surpreende, mas carrega verdade para falar de temas complicados

Natália Bridi
09.03.2020
18h50
Atualizada em
09.03.2020
23h01
Atualizada em 09.03.2020 às 23h01

As lágrimas do público se tornaram parte da assinatura da Pixar. O segredo está na sinceridade que dita a condução das histórias para que mesmo monstros felpudos possam apresentar reflexões profundas sobre a natureza humana. Em Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica essa regra se repete. O diretor Dan Scanlon olha para o próprio luto, a morte do pai na infância, para falar sobre a continuidade da vida em uma aventura repleta de ação e personagens fantásticos. 

No universo do filme, elfos, centauros, fadas e outras criaturas dignas de um tabuleiro de RPG habitam uma realidade em que a magia foi substituída pela tecnologia e o lúdico deu lugar ao mundano. Assim vive Ian Lightfoot, um jovem elfo que no seu aniversário de 16 anos sente calado a ausência do pai que nunca conheceu. Seu irmão mais velho, Barley, compartilha desse pesar, mas busca forças na magia há muito esquecida do seu mundo, evitando os conflitos comuns de um adolescente prestes a entrar na vida adulta.

Um presente inesperado une os dois em torno de uma promessa mágica: reencontrar o pai por um dia. Quando o encantamento dá errado, deixando a convocação pela metade, os irmãos assumem uma missão na esperança de preencher o vazio que sentem. Para ter tudo o que mais desejam, Ian e Barley vão seguir por um caminho perigoso até uma joia rara escondida em uma montanha. O trajeto, porém, pode ser ainda mais complexo do que parece. 

O senso de humor é físico, o que facilmente conquista as crianças, mas Scanlon (que também assina o roteiro com Keith Bunin e Jason Headley) equilibra com honestidade o peso dos assuntos que escolheu tratar, seja o luto pela morte do pai, as nuances da relação entre os irmãos ou a força da mãe que passa a criar os filhos sozinha. Dois Irmãos é consciente da sua simplicidade, o que não significa se esquivar de temas difíceis. 

Ironicamente, enquanto prega que o melhor caminho nem sempre é uma linha reta pavimentada, o filme segue por um trajeto seguro, evitando qualquer desvio. Análise que vale para o roteiro redondinho e para o design de produção que urbaniza o mundo mágico em cima de velhos arquétipos (o cogumelo que vira casa, a fonte medieval usada nas placas…). Nada surpreende, ainda mais quando comparado a outros títulos da Pixar, mas como prova a polêmica em torno de uma cena despretensiosa  — um relacionamento LGBTQ+ citado sem alarde — são tempos em que mesmo uma linha de roteiro pode se tornar complicada. 

Sentindo o peso da sua temática, Dois Irmãos evita o subtexto. Mesmo assim, entre risadas fáceis e lágrimas esperadas, é um produto legítimo da Pixar, carregado de verdade em todas as suas intenções.

Nota do Crítico
Bom