Do Luto à Luta | Crítica
Do luto à luta
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O maior desafio de um documentário, aquilo que lhe permite retratar a realidade como tal, é fazer desaparecer a câmera. Isto é, deixar o objeto de estudo à vontade para que ele não atue, sabendo que está sendo registrado, e sim reaja como se estivesse diante de um igual. Só assim é possível encostar na utopia de enxergar o mundo com os olhos do outro.
Filmes como O Prisioneiro da Grade de Ferro resolveram essa questão com o auxílio do problema - colocando o poder, a câmera, na mão do documentado. Já Eduardo Coutinho cimenta o fosso que separa os dois lados de outra maneira: expondo a sua própria imagem. Evaldo Mocarzel (À Margem da Imagem) arrisca os dois jeitos em Do Luto à Luta (2005).
Mocarzel expõe-se a partir da escolha do tema. Quando sua esposa estava grávida, ele criou um filme sobre parteiras. Com o nascimento de sua filha, Joana, há cinco anos, portadora de Síndrome de Down, decidiu desmistificar a doença que um dia foi coberta de preconceito - e chamada de mongolismo, devido aos olhos puxados que lembram os asiáticos mongóis. Joana só aparece na tela na segunda metade dos 75 minutos de duração. Antes, Mocarzel trata um pouco do traço genético que afeta, anualmente, 8 mil recém-nascidos no Brasil.
E tudo começa na sala de parto. Pais testemunham o misto de negação e dúvida que marca o momento da má notícia. Alguns reproduzem os desconhecimentos que ouviram dos médicos - um deles disse, em pleno hospital, que o bebê downiano só conseguiria se arrastar para o resto da vida. Com um pouco de tempo, e contato, os pais aprendem que a doença não é uma fatalidade. Muitos se abraçam à religião, enxergam o filho como uma provação e uma dádiva. Outros empreendem uma batalha, como o próprio título diz, para evoluir ao máximo o poder de raciocínio e comunicação da criança.
Até a sua metade, Do Luto à Luta já consegue provar por exposição - conhecemos na tela Downs altamente desenvolvidos e outros um tanto retraídos - que o mais importante na hora de tratar a doença é a inclusão: não tratar o filho com reclusão, mas fazê-lo conviver com o diferente. Mas ainda falta a mágica do documentário. Até aqui são objetos de estudo, entrevistados. Ficamos conhecendo portadores da Síndrome, mas não conseguimos ver o mundo como eles vêem. O que fazer?
No início do filme Mocarzel envereda num híbrido factual-ficcional, encenando um momento da vida de uma entrevistada que, num documentário normal, passaria apenas como registro verbal. Na cena, uma menina portadora está sentada numa mesa, a câmera assume a primeira-pessoa, subjetiva, e passeia meio incerta por uma sala em close-ups sem foco. É coisa de dois minutos, mas a cena intriga - não só pelo arrojo como pela ambição desmedida de reproduzir o olhar do Down sem, necessariamente, estar no lugar dele. Um mimetismo.
Depois dessa passagem fica a impressão de que é, realmente, impossível se colocar no lugar do documentado sem recorrer a artificialidades. Mas então Mocarzel reserva o terço final do longa a apresentar um casal, Ariel e Rita, ambos portadores, que está prestes a se casar. O noivo se diz fã de cinema e de Steven Spielberg. Seu sonho é dirigir um filme. Evaldo Mocarzel cede a câmera não apenas para satisfazer o entrevistado - é o meio, à la Prisioneiro, que ele encontra para ver o mundo com os olhos de um downiano. E o resultado é sublime.
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