Claire Foy como Sawyer Valentini em Distúrbio

Créditos da imagem: Divulgação/Fingerprint Releasing

Filmes

Crítica

Distúrbio

Gravado com iPhones, suspense psicológico de Steven Soderbergh cria um claustrofóbico conto sobre opressão

Gabriel Avila
08.05.2020
17h15

Após chocar o mundo do entretenimento com o anúncio de uma aposentadoria que chegou ao fim em quatro anos, o diretor Steven Soderbergh passou a se dedicar a projetos que o desafiassem de alguma forma. Seu retorno aconteceu em Logan Lucky - Roubo em Família, cujo roteiro chamou atenção por ser uma versão nada glamurosa de Onze Homens e um Segredo, a grande franquia de sua carreira. Para seu projeto seguinte, o cineasta escolheu Distúrbio, suspense psicológico filmado inteiramente com iPhones. Com essa premissa, o filme poderia ser apenas uma declaração que é possível fazer cinema com poucos recursos mas, com um roteiro afiado, o longa se torna uma ampla crítica às opressões causadas pelas brechas do sistema.

Distúrbio conta a história de Sawyer Valentini (Claire Foy), uma mulher que procura ajuda psicológica para enfrentar um trauma antigo que a impede de viver até os dias atuais. O que começa com uma agradável consulta, se torna um pesadelo quando a clínica a interna contra sua vontade. Impedida de deixar o local, Valentini precisa lidar com a razão de seus medos - que pode muito bem não ser real. Consciente de que a sinopse narra uma premissa comum, o roteiro de Jonathan Bernstein e James Greer (Missão Quase Impossível) não enrola muito para prender sua protagonista no manicômio. Mesmo que isso desenvolva o início com ritmo apressado, essa escolha tem claro objetivo de descartar a parte previsível da história. Se em casos menos inspirados a jornada da protagonista seria focada em acompanhá-la sofrendo com o cárcere até conseguir se libertar milagrosamente, aqui o clichê é deixado de lado em favor de um debate sobre problemas do mundo real.

Aos poucos são reveladas as motivações tanto de Sawyer, que foge de um perseguidor que não aceita viver longe dela, quanto da instituição que a mantém presa. Se a primeira aborda uma situação intimista como relacionamentos abusivos, a segunda denuncia um problema sistêmico, que utiliza a saúde como meio de ganhar dinheiro. Ainda que ambas tragam sua dose de choque, o verdadeiro horror se instaura conforme a trama avança e ambos os temas se completam de uma forma crível. Em uma metáfora que faz questão de se fazer óbvia, Distúrbio aborda alguns absurdos que sociedade impõe à mulher diariamente. Como se defender em ambiente que constantemente aponta como “louca” aquela que usa sua voz para denunciar os abusos que sofre? Produzido durante a explosão do movimento #MeToo, não é coincidência que o filme reflita sobre diferentes formas de opressão.

Esse tema é visitado constantemente para apontar as incontáveis falhas na forma de proteger uma vítima, que por vezes se vê condenada a renunciar a partes de sua vida para ficar a salvo dos verdadeiros culpados que, amparados pelo sistema, seguem suas vidas normalmente. A angústia vivida por Sawyer é traduzida em uma fotografia claustrofóbica que utiliza o aspecto criado pela câmera do iPhone para criar quadros incômodos que por vezes escondem as ameaças a olhos vistos. Afirmando que utilizou alguns dos “defeitos” do aparelho como efeitos especiais, Soderbergh utiliza ângulos que passeiam pelos cenários de forma que o espectador consegue antecipar ataques e meramente assista, ficando impotente diante de uma violência crescente.

A tensão fica mais forte a cada vez que a protagonista tenta pedir socorro e é ignorada por não ser “confiável”, situações que jogam os holofotes em Claire Foy. Conhecida por interpretar a versão jovem da Rainha Elizabeth II na série The Crown, a atriz entrega uma performance que evita a todo custo cair em estereótipos. Transitando entre momentos de extrema confiança, para um pavor genuíno e até acessos de raiva, ela adiciona bem-vindas camadas à sua personagem que reage de forma plausível à loucura ao seu redor.

No entanto, ainda que tenha uma história poderosa, Distúrbio se perde em seu próprio ritmo. Embora a tensão tenha uma crescente pela gravidade dos eventos, há momentos em que o filme parece perdido, precisando apresentar informações de forma desajeitada para criar ganchos para acontecimentos futuros. Se a trama fortalece seu mistério no início ao deixar pequenas pistas que se conectam com naturalidade, ela tropeça em obviedades conforme avança. Isso afeta não apenas o andamento do filme, que perde fôlego na reta final, mas também o papel de personagens secundários, que aos poucos perdem sua importância.

Não é preciso forçar muito a memória para encontrar exemplos de como o cinema de horror aproveita de temáticas reais para construir seus monstros. Produzidos em uma época em que as vítimas têm mais voz para denunciar e combater seus agressores, filmes como Distúrbio são mais do que bem-vindos. Com um punhado de iPhones e uma história forte, Steven Soderbergh honrou seu zeitgeist, as raízes do gênero e a coragem de quem decide lutar contra seus males. Nada mal para alguém que aposentou a própria aposentadoria.

Nota do Crítico
Bom