Digger faz sátira política envolvente, regida por um Tom Cruise magnético e com ânsia por aplausos
Alejandro G. Iñárritu encontra o formato de protagonista perfeito para seu estilo de cinema
É sempre difícil imaginar que alguns dos maiores astros de Hollywood, aqueles que fizeram clássicos e blockbusters bilionários amados pelo público, uma hora também precisem da aprovação e da chancela de prêmios em suas carreiras. Tom Cruise é mais um nessa lista, e é com Digger, novo filme do badalado e premiado diretor mexicano Alejandro G. Iñárritu, que o ator por trás de Top Gun e Missão: Impossível pretende chamar a atenção do mundo e vencer seu primeiro Oscar após quatro indicações (três como ator e uma como produtor).
Mas essa jornada por prêmios acaba eclipsando uma obra tão interessante quanto seu astro e diretor. Digger é uma sátira política que mostra um refino do cinema de Iñárritu em relação a obras como Birdman e Bardo. Acompanhamos a história de Digger Rockwell (Cruise), um magnata do petróleo que se vê no meio de uma crise global quando uma de suas bases de exploração na Groenlândia explode, fazendo com que uma enorme geleira flutue em direção à Europa, ameaçando causar danos irreparáveis. A situação escala rapidamente, colocando Digger e o governo americano em conflito direto com líderes europeus diante de um cenário para o qual ninguém está preparado.
Iñárritu conta essa história como uma grande farsa sobre a política atual. John Goodman, excelente como o Presidente Compson, é uma mistura de Donald Trump com todos os estereótipos que cercam os republicanos: armas, bombas, petróleo, religião e ataques ao resto do mundo estão sempre presentes em suas falas. O gabinete de crise é formado por personagens que parecem saídos diretamente de Team America, com espaço para discursos raivosos de militares e pausas para rodas de oração no meio do caos. Já Riz Ahmed, mais uma vez roubando a cena, interpreta o especialista em meio ambiente como um personagem do cinema de Wes Anderson, mas deturpado por essa realidade em que Digger se insere.
O diretor encontra no formato da narrativa algo que faltou ao seu filme anterior, o cansativo e autoindulgente Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades. Ao criar essa farsa com duas linhas temporais — ou camadas diferentes de trama —, Iñárritu utiliza com primor a estética teatral de Bardo e Birdman. A escolha por cores dessaturadas dá ao mundo de Digger uma aura pálida e sem vida, como a de um planeta que parece estar apodrecendo mais rápido do que o esperado, habitado por figuras incapazes de salvá-lo. A cena no Parlamento Europeu é um exemplo claro dessa estética: os políticos e líderes são retratados quase como as estátuas de mármore centenárias que lotam os museus do continente, mas sem a beleza artística buscada pelos renascentistas.
Tudo isso também faz parte do “grande segredo” que a história carrega: uma reviravolta que, no início, parece apenas uma distração, mas se desenvolve não só como complemento, mas uma evolução do tema abordado. A partir da sátira, Iñárritu aponta o dedo para todos os lados, dos conservadores aos mais progressistas, mostrando como ambos fazem parte de uma trama global que vai levar ao fim do mundo, quer neguem, quer assumam suas posições neste tabuleiro. Por mais que não precisasse, o roteiro de Iñárritu, Sabina Berman, Alexander Dinelaris e Nicolás Giacobone deixa bem explicado suas intenções sobre o protagonista e o estado das coisas.
No meio de toda essa engrenagem está Tom Cruise — sob muitas próteses de maquiagem —, brilhando desde o primeiro momento como Digger Rockwell. Do seu relacionamento tóxico com a gata Maggie ao discurso inflamado no parlamento, Cruise mistura George W. Bush com Les Grossman (seu personagem em Trovão Tropical) em uma abordagem que remete diretamente ao Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick. Enquanto Rockwell parece encarnar o lado de Cruise sedento por aplausos e estatuetas, a outra “camada” do filme se mostra tão interessante quanto, funcionando como uma sequência temática do que o diretor já havia feito com Michael Keaton em Birdman. A discussão sobre se esta é ou não a melhor atuação da carreira de Cruise torna-se pequena diante do excelente trabalho do ator, que transita entre essas duas dimensões de forma precisa. É o tipo de debate que mais atrapalha do que ajuda, tirando o foco do que realmente importa na produção: o impacto de figuras como Digger Rockwell na história da humanidade.
Alejandro G. Iñárritu é comumente chamado de pedante. Obras como Bardo e seus discursos em premiações por O Regresso e Birdman o colocaram nessa posição quando comparado aos seus companheiros mexicanos Guillermo del Toro e Alfonso Cuarón. Entretanto, em Digger, ele parece entender melhor sua forma de narrar ao alinhar o tom da história não a um artista em crise existencial, mas a um personagem que se enxerga como o dono do mundo.
Digger pode até parecer óbvio ou sem sutileza em sua mensagem central, mas nada que envolve o personagem de Tom Cruise é tratado com moderação. Da maquiagem aos arroubos de comportamento, tudo é escalafobético no reinado de Digger Rockwell. Mesmo assim, o filme aborda temas como desastres ambientais e o cenário político mundial de forma menos professoral do que produções como Não Olhe Para Cima ou O Mundo Depois de Nós. É uma sátira precisa, engraçada e comandada por um Tom Cruise tão magnético que nem mesmo Iñárritu consegue escapar do raio de atração de seu astro e do foco da narrativa.
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