Diana: O Musical repassa vida da princesa sem muito insight ou inspiração

Créditos da imagem: Cena de Diana: O Musical (Reprodução)

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Crítica

Diana: O Musical repassa vida da princesa sem muito insight ou inspiração

Supérflua para quem conhece a história de Lady Di, produção não sabe como evocar sua grandeza

Caio Coletti
01.10.2021
15h10

David Bryan e Joe DiPietro, os autores de Diana: O Musical, sabem muito bem que a princesa de Gales era mais do que “uma garota muito bonita com vestidos muito bonitos”. Tanto sabem que tentam injetar na sua história a noção (precisamente observada) de que a forma na qual Diana usou sua imagem durante e depois de seu casamento com Charles foi quase revolucionária. Através de cada uma de suas aparições como “a garota bonita com o vestido bonito”, Lady Di se comunicava, se revelava, em suas particularidades mais humanas e, ao mesmo tempo, suas aspirações mais nobres.

São nos momentos em que investe nisso que Diana: O Musical brilha com insights que outros retratos da princesa (incluindo The Crown!) deixaram escapar. A Diana construída pelo texto, pelas músicas e pela estrela Jeanna de Waal é repleta de, e talvez até definida por, uma inteligência fenomenal. Suas ações são sempre conscientes, sempre carregadas de intenção - dar a mão aos pacientes em sua visita ao hospital de AIDS, entregar os segredos do seu casamento para o escritor que lançou sua polêmica biografia, usar o vestido decotado que ofuscou a entrevista de Charles admitindo sua infidelidade na TV.

E, ainda assim, o musical nos diz que o grande conflito dessa Diana brilhante com o mundo em que ela foi inserida foi que ela era “subestimada” por todos. Este é o título da primeira canção do filme (“Underestimated”), inclusive, e várias vezes, durante as duas horas seguintes, Diana: O Musical quer nos mostrar que a princesa foi desconsiderada e desclassificada como um indivíduo com agência dentro de seu casamento, da família real, e do mundo. 

Não é uma colocação falsa, mas Bryan e DiPietro perdem de vista uma verdade mais profunda, e fundamental: Diana era “subestimada” dessa forma não por um erro honesto dos Windsor, da imprensa ou da sociedade como um todo, mas por medo. Medo do que ela poderia ser, do que poderia transformar, se não fosse sufocada como foi. Embora tenha coragem de dar intenção e inteligência para a sua princesa, Diana: O Musical não parece parar para considerar que o que foi feito com ela também foi intencional.

Por causa dessa falha fundamental, Diana: O Musical acaba se tornando um adendo inconsequente ao rol de obras de ficção sobre a princesa, mesmo com todo o seu óbvio esforço técnico. O lançamento da Netflix é na verdade a gravação de uma apresentação teatral, feita durante o fechamento da Broadway por conta da pandemia de covid-19 - portanto, sem plateia. E o diretor Christopher Ashley, vencedor do Tony por Come From Away, toma proveito dessas circunstâncias únicas ao colocar a sua câmera em lugares onde o público do teatro não conseguiria chegar.

O uso de close-ups das performances dos atores (a atuação de De Waal, minuciosa em sua expressão frustrada, se beneficia muito disso), e de perspectivas únicas que reforçam a prisão na qual Diana se sentia ao ser perseguida por repórteres e vigiada pelo público, é ubíquo - ainda que nem sempre sutil ou de bom gosto. Enquanto isso, a cenografia luxuosa de David Quinn, que se utiliza de luzes neon, alçapões e esteiras sem parcimônia, encanta em vários momentos chave do filme.

Diana: O Musical é, em si, grandioso, tanto em termos de montagem (como peça teatral) quanto em termos de filmagem (como especial da Netflix). Com canções majoritariamente esquecíveis e uma insistência incômoda em não culpabilizar os culpados por uma história trágica que reluta em reconhecer como tal, no entanto, ele perde de vista a grandeza da mulher que quis retratar.

Diana: O Musical
Diana: The Musical
Diana: O Musical
Diana: The Musical

Ano: 2021

País: EUA

Duração: 117 min

Elenco: Erin Davie, Judy Kaye, Roe Hartrampf, Jeanna De Waal

Nota do Crítico
Regular

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