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Crítica

Dheepan - O Refúgio | Crítica

Diretor de O Profeta volta ao internacionalismo de vitrine em filme vencedor de Cannes

Marcelo Hessel
25.10.2015
12h00
Atualizada em
29.06.2018
02h42
Atualizada em 29.06.2018 às 02h42

Com a Palma de Ouro ganha por Dheepan - O Refúgio (Dheepan, 2015) no Festival de Cannes neste ano, o cinema do diretor francês Jacques Audiard fecha esse seu ciclo de ascensão internacional iniciado em 2009 com O Profeta, seu quinto longa. Um ciclo que tem contornos de caso pensado, que joga com as facilidades daquilo que se espera de um filme-de-festival, em troca de prestígio.

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Audiard volta à estrutura dramática de O Profeta - a perda da inocência seguida de um despertar para a violência que pode ser interpretado como perdição ou emancipação - para contar em Dheepan a hstória de três refugiados do Sri Lanka - um veterano de guerra, uma mulher que tem parentes na Inglaterra e uma menina órfã de nove anos -, três estranhos que dizem ser uma família para, assim, serem aceitos como imigrantes na França. Uma vez em Le Pré-Saint-Gervais, periferia ao Norte de Paris, diante da perspectiva de levar uma vida normal, eles precisam de fato aprender a viver como uma família.

A melhor parte de Dheepan é esse choque inicial que não é necessariamente cultural, mas de comportamento: o que define uma vida "normal"? Como aprender de repente a se comportar como um típico cidadão de uma democracia ocidental, preocupado com padrões de convívio (realizar-se no trabalho, viver em função dos filhos) e com os pequenos prazeres do consumismo? Embora os protagonistas cingaleses de Dheepan sejam uma presença tão marcante - na força das fisionomias e dos gestos do Sudoeste Asiático - o filme, no seu começo, fala principalmente de nós e de tudo aquilo que julgamos ser a normalidade.

O problema de Dheepan - O Refúgio é justamente a incapacidade de dar, quando preciso, uma especificidade aos seus protagonistas, a título de contraposição dessa "normalidade". A certa altura fica claro que não faz muita diferença se Dheepan e sua nova família são cingaleses, indianos, árabes ou paquistaneses; Audiard não enxerga seus personagens como gente com histórias e traumas particulares, mas como tipos a serviço de um discurso bastante esquemático de desencanto com o mundo. É como a esposa que diz que Dheepan não entende as piadas dos franceses simplesmente porque não tem senso de humor.

Para Audiard, se há algum traço cultural que os personagens trazem consigo, esse traço só existe se externalizado como demonstração, e não problematizado. Então testemunhamos Dheepan cantando e dançando bêbado, como se para afirmar sua identidade fosse preciso, antes de mais nada, torná-la uma performance. (E a performance final não seria outra senão a violência.)

Essa noção de um internacionalismo de vitrine - um idioma visual bastante próximo dos exploitations que hoje é usado para que o público ocidental expie confortavelmente suas culpas diante do Terceiro Mundo - é fator central nesse movimento que coloca Jacques Audiard no centro do mercado dos festivais e das premiações.

Nota do Crítico
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