Dentro da Baleia usa aflição e desespero para traduzir difícil conversa entre pai e filho
Brian Duffield usa horror corporal, luto e trauma paterno em suspense de tirar o fôlego
Temos que concordar que um cara ser pego por uma lula gigante e logo em seguida ser engolido por uma baleia não é das histórias mais críveis do mundo, mas ainda assim Dentro da Baleia se leva muito a sério. O filme, baseado no suspense literário de Daniel Kraus, acompanha o jovem mergulhador Jay Gardiner (Austin Abrams), que se vê em uma luta desesperada pela sobrevivência ao ser engolido por uma baleia. Preso no estômago do animal, ele precisa encontrar uma maneira de escapar enquanto seu suprimento de oxigênio começa a acabar.
O filme se vende como uma aventura de escape room viva, mas vai muito além disso. Tudo começa com a motivação do nosso protagonista. Seu pai Mitt, interpretado pelo veterano Josh Brolin, se lançou ao mar aberto para fugir dos cuidados paliativos de um câncer terminal. Um ano depois, a família se reúne para lembrar dele e, entre conversas e memórias, a irmã mais nova de Jay, Nan (Emily Rudd), compartilha sua angústia por ter enterrado um caixão vazio – já que o corpo de Mitt não voltou do fundo do mar. Vendo o desespero dela, e também com suas próprias questões mal resolvidas, Jay decide realizar um mergulho para encontrar os restos do pai.
Quando mais fundo Jay mergulha, mais longe vamos na relação dele com o pai. Filho mais velho e único homem, ele cresceu com a pressão de se tornar uma cópia do pai: um mergulhador experiente e mais preocupado com o meio-ambiente do que com o mundo capitalista. Porém, a maçã caiu longe do pé, e o jovem cresceu influenciado por seus iguais, indo em shoppings, parques aquáticos e escolhendo estudar longe, uma decisão que fez seu pai se sentir traído.
Essa relação abusiva criou um abismo entre os dois, fazendo com que uma conversa apaziguadora nunca acontecesse. E assim, como o abismo entre eles, o protagonista desce ainda mais em uma fenda escura, onde é surpreendido por uma caçada subaquática: uma baleia jubarte devora uma lula gigantesca, que antes de ser engolida agarra a perna de Jay e o arrasta goela abaixo, aprisionando ambos em uma cela viva de 40 toneladas.
A partir daí, o drama de pai e filho passa a dividir a tela com uma sufocante jornada de sobrevivência. Enquanto se preocupa em sobreviver, Jay passa algum tempo sem se lembrar do pai e o filme usa esse intervalo para proporcionar ao espectador uma angustiante sequência de horror corporal. De esmagamento à queimadura por ácido gástrico com pitadas de torture porn, o jovem é lançado de um lado para outro nas entranhas do mamífero até que seu pai volta à sua mente.
No desespero, o rancor que acompanhava as lembranças do pai dá lugar a um sentimento de catarse, e as duras palavras que antes pareciam apenas grosserias se traduzem como ensinamentos valiosos para tirá-lo daquela situação. Assim como um adulto que passa a entender as broncas do pai, Jay percebe que as reclamações do velho serviam para prepará-lo para o mundo selvagem – fosse ele de pedra, de água ou rodeado de árvores.
Apesar de inusitada, essa mistura do fantástico com um drama familiar consideravelmente comum é bem amarrada pelo texto de Kraus - que foi bem adaptado para as telas por ele e pelo diretor Brian Duffield. Mas o roteiro não é o maior mérito do cineasta, que além de construir uma trama envolvente, também foi capaz de levar isso para a câmera. Apesar de pecar no volume, a trilha sonora de Joseph Trapanese também corroborou com a imersão claustrofóbica do filme, que faz os nossos nervos acreditarem que aquela situação impossível pode ser real.
Porém, nada supera o trabalho do promissor Austin Abrams — que a essa altura já pode ser considerado o “scream king” de 2026. O ator americano de 30 anos está fazendo seu nome em filmes que dependem de suspense e horror para dar certo, desde A Hora do Mal (2025) e Resident Evil (2026). Parte da suspensão de descrença do longa vem do trabalho de Abrams, que com suas caras e bocas - e gritos - faz o subconsciente acreditar, pelo menos por um instante, que todo aquele sofrimento é real.
São poucos os momentos em que Dentro da Baleia erra a mão. Mesmo exagerando na aflição que causa ao espectador, o filme se aproveita disso para dar mais peso aos seus momentos finais. E, mesmo com a dupla Jane Levy (A Morte do Demônio) e Elisabeth Shue (The Boys) desperdiçadas na trama, temos um bom uso dos talentos de Brolin para compensar.
Dentro da Baleia mergulha fundo em traumas e medos, trazendo para superfície traumas que nem sabíamos da existência — assim como as melhores sessões de terapia.
Dentro da Baleia
Whalefall
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