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Crítica

Deadpool 2 | Crítica

Continuação amplifica as qualidades do primeiro filme e compensa suas indecisões na base do excesso

Marcelo Hessel
15.05.2018
14h55
Atualizada em
17.05.2018
04h05
Atualizada em 17.05.2018 às 04h05

Embora o primeiro filme de Deadpool siga fielmente o que a HQ do mercenário tem de mais eficiente, o longa chegou aos cinemas bastante favorecido pelo fator surpresa. Deadpool 2 tenta suprir essa falta do jeito que as continuações hollywoodianas normalmente fazem, potencializando o que deu certo no original - principalmente as piadas de referência pop e de metalinguagem. Deadpool 2 acaba funcionando como um filme-comentário sobre o próprio sucesso de Deadpool e sobre o novo lugar que o personagem ocupa na paisagem da comédia americana hoje.

Nesse sentido, a experiência que a continuação oferece é, em comparação com o primeiro longa, ainda mais descolada de qualquer senso tradicional de fabulação e suspensão de descrença. A própria adaptação que o filme faz dos quadrinhos desta vez - pegando o conceito de Cable, apresentando novos mutantes, tanto aliados quanto vilões - parece pautada pelo descompromisso, e o Cable de Josh Brolin que vemos aqui, em particular, é bastante simplificado em relação à mitologia que envolve o personagem do futuro nas HQs dos X-Men.

A regra é aproveitar o que personagens têm de potencial visual, cômico, então Cable fica sendo o "mutante sombrio", e Brolin se esmera em ocupar a função do escada de deadpan face para as piadas de Ryan Reynolds. Já Dominó (Zazie Beetz) acaba ganhando mais tempo de cena menos por seu caráter funcional e mais pela oportunidade de brincar com situações de ação envolvendo lances engraçados de sorte. No humor, Deadpool 2 consegue criar momentos e personagens que realmente trazem alguma novidade em relação ao filme anterior (mesmo quando só varia e amplifica situações já vistas, como os desmembramentos de Wade Wilson), e a escatologia fica mais proeminente (a imagem de Wade definhando e tendo seu corpo dobrado nas lutas com Cable são um dos pontos fortes da continuação).

São justamente as lutas corpo a corpo que, em termos de ação, o filme oferece de melhor. Quando Cable e Deadpool brigam na prisão, por exemplo, a tradicional coreografia de artes marciais com três movimentos por plano ganha esse bem-vindo adendo da "elasticidade" do corpo de Wade, e o diretor David Leitch consegue encenar a briga de um jeito que ela parece mesmo de impacto, que tenha um peso visual e não apenas um caráter cômico descompromissado. No geral, porém, Leitch parece fora de lugar; especialista em efeitos práticos e cenas com dublês, ele não maximiza o orçamento magro nas cenas de CGI como Tim Miller fazia no primeiro filme. Miller, afinal, vinha justamente do mercado de VFX, e a computação gráfica de Deadpool 2 parece mais pobre que a do primeiro filme - basta ver como Colossus ficou com menos texturas ou como as tomadas aéreas da perseguição do comboio carecem de fisicalidade.

No humor e na ação, o filme tem seus momentos. O que desgasta Deadpool 2 mesmo é a indecisão - já vista inclusive em Zumbilândia, também escrito pela dupla de roteiristas Rhett Reese e Paul Werneck - entre a ironia e a seriedade. Se a premissa dramática do primeiro Deadpool estava em sintonia com a comédia (Wade quer se vingar, e isso só acaba servindo para engatilhar o humor e a ação), o segundo filme compra um dos pacotes dramatúrgicos prontos de Hollywood (o herói solitário/traumatizado que precisa de alguém para ouvir e aceitar seus lamentos), e esse pacote não combina muito com o personagem no fim.

O resultado não é tão satisfatório porque essa premissa exige um envolvimento emocional que - fica logo evidente - Deadpool 2 não tem vocação nenhuma para honrar. Assistimos então a uma meia-paródia, um filme que coloca todos os seus esforços em formular e entregar gags com variedade (a piada de referência cinematográfica, a piada meta, a piada sexual, a piada escatológica) ao mesmo tempo em que se sustenta numa trama de redenção pretensamente séria. Deadpool 2 acaba não só um filme indeciso, mas principalmente um filme que acaba também minando seu caráter subversivo ao seguir uma fórmula bastante conservadora de arcos dramáticos.

Bombardeado por uma trama que tenta compensar sua indecisão com uma sucessão intensa de eventos, o espectador pode sair extenuado de Deadpool 2. No meu caso, depois de umas duas horas após o filme passei a gostar mais de momentos isolados mesmo, como a cena toda da conciliação na sala de Blind Al, e isso talvez demonstre que Deadpool - que afinal é um personagem que em si não tem tanto a oferecer - funciona melhor quando assume uma estrutura mais de esquetes do que de jornada emocional.

Deadpool 2
Deadpool 2

Ano: 2018

País: EUA

Classificação: 18 anos

Duração: 120 min

Direção: David Leitch

Roteiro: Ryan Reynolds, Rhett Reese, Paul Wernick

Elenco: Hugh Jackman, Evan Peters, Tye Sheridan, James McAvoy, Nicholas Hoult, Brad Pitt, Paul Wu, Lars Grant, Thayr Harris, Hunter Dillon, Andréa Vawda, Nikolai Witschl, Alan Tudyk, Islie Hirvonen, Tanis Dolman, Scott Vickaryous, Robert Maillet, Luke Roessler, Hayley Sales, Rob Delaney, Bill Skarsgård, Lewis Tan, Terry Crews, Eddie Marsan, Shiori Kutsuna, Andre Tricoteux, Jack Kesy, Julian Dennison, Morena Baccarin, Ryan Reynolds, Josh Brolin, Morena Baccarin, Zazie Beetz, T.J. Miller, Brianna Hildebrand, Stefan Kapičić, Jack Kesy, Julian Dennison, Shiori Kutsuna, Leslie Uggams, Karan Soni, Eddie Marsan, Stan Lee

Nota do Crítico
Bom