Crush à Altura

Créditos da imagem: Crush à Altura/Netflix/Divulgação

Filmes

Crítica

Crush à Altura

Comédia Romântica tenta explorar desconforto adolescente, mas é dominada por personagens fracos

Julia Sabbaga
15.09.2019
14h22

Com a facilidade de lançar filmes de médio orçamento e liderando a nova onda de comédias românticas, a Netflix caminha por acertos e erros pela quantidade de produções que disponibiliza. Nos últimos meses, a plataforma conseguiu criar sensações com A Barraca do Beijo e Para Todos os Garotos que Já Amei, longas que apostam no público adolescente, e acertam na falta de pretensão. A mais nova iniciativa, Crush à Altura, segue a mesma linha, mas apesar de boas intenções, passa longe de apresentar originalidade ou consistência.

Marcando a estreia de Nzingha Stewart na direção de um longa, Crush à Altura conta a história de Jodi (Ava Michelle), uma adolescente de mais de 1 metro e 80 que sofre bullying por sua altura e passou sua vida se escondendo dos holofotes. Incentivada pelo interesse em um estudante intercambista que entra na escola, Jodi inicia um processo de redescobrimento e auto-confiança. Apesar do foco na personagem, a comédia romântica pretende explicar a insegurança da adolescência de modo geral, mostrando que até a irmã de Jodi, vencedora de concursos de beleza, tem suas fraquezas, e que a garota mais popular da escola também lida com inseguranças.

O maior problema da comédia romântica é a inconsistência de seus personagens. Ao invés de entregar profundidade à protagonista, explicando que a garota é mais do que sua altura, o filme faz o inverso, buscando explicitar que Jodi se define por seu conflito interno. Por isso, cada vez que um personagem explica literalmente algum dos outros traços da jovem, como sua leitura ávida ou senso de humor, detalhes que em nenhum momento são retratados, o filme apenas deixa claro sua própria limitação. A fraqueza não é exclusiva da protagonista, e chega a incomodar ainda mais em Stig (Luke Eisner), o aluno sueco, que passa de bonzinho para péssimo para razoável em menos de 30 minutos.

Crush à Altura ainda perde a oportunidade de aprofundar a sua própria tese, de que o desconforto adolescente é universal. A melhor amiga de Jodi, Fareeda (Anjelika Washington), tem um potencial descaradamente desperdiçado, que chega a ser dito com todas as letras: "Às vezes eu penso como seria se meus amigos me perguntassem dos meus problemas", a personagem diz, explicando seu papel clichê de melhor amiga da protagonista. Mal explorada desde o início, Fareeda também exemplifica a oportunidade perdida que o filme tem de discutir amizade feminina. Com isso, o único personagem consistente do longa é Dunkleman (Griffin Gluck), amigo de Jodi e apaixonado pela protagonista, que acerta o timing cômico e cativa pela personalidade mais interessante entre os personagens.

A comédia romântica tenta distrair de suas fragilidades com uma boa trilha sonora, belas imagens de Nova Orleans e um elenco confiável, mas até em termos técnicos ela perde sua chance. Quando Jodi mostra sua altura pela primeira vez, na cena de introdução, o filme parece que vai divertir com movimentos de câmera e a exploração do ponto de vista de alguém muito mais alto, mas o recurso não chama atenção em nenhum outro momento.

É bom ver a Netflix se utilizando de suas possibilidades para dar voz à novos cineastas, e apostando em uma produção que tem o coração no lugar certo. Infelizmente, Crush à Altura não inova ou surpreende em nenhum aspecto, chamando atenção mais por suas limitações do que por suas boas intenções.

Nota do Crítico
Regular