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VIPs | Crítica

Wagner Moura adiciona euforia e tormento à história real de um mentiroso

Marcelo Hessel
24.03.2011
18h00
Atualizada em
12.11.2016
23h03
Atualizada em 12.11.2016 às 23h03

No papel, VIPs parece uma versão abrasileirada de Prenda-me se For Capaz, mas o personagem (ou os personagens) que Wagner Moura encarna no filme se parece tanto com o Leonardo DiCaprio atormentado de O Aviador quanto com o DiCaprio carente e eternamente jovem do filme de Steven Spielberg.

Escrito por Thiago Dottori e pelo coroteirista de Cidade de Deus, Bráulio Mantovani, o longa se inspira na vida de Marcelo da Rocha, que ficou conhecido por aplicar golpes, como passar-se pelo filho do dono de uma companhia aérea durante o carnaval do Recife. A base é o livro de Mariana Caltabiano VIPs - Histórias Reais de um Mentiroso, que também está ganhando um documentário. A versão ficcionalizada, porém, dá uma boa dramatizada na história.

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Desde jovem, Marcelo sonhava em viajar o mundo, ser um piloto como seu pai. No colégio, imitava as pessoas como se fosse uma reação do seu corpo, um espasmo. As duas coisas, a ambição e o talento, começaram a se juntar quando Marcelo saiu de casa, fez-se passar por algumas pessoas, e arrumou emprego em um pequeno aeroclube. Anos depois, já era o piloto mais famoso das pistas de pouso clandestinas entre o Brasil e o Paraguai. Fingir ser o herdeiro de uma grande empresa de aviação foi seu ápice.

A direção do estreante Toniko Melo - mais um nome da produtora O2 de Fernando Meirelles e Paulo Morelli a conciliar a publicidade com o cinema - tem sempre em Wagner Moura o seu norte. Com seu estilo de interpretação bipolar que vai rapidamente da timidez à explosão, o ator parece confortável na responsabilidade de conduzir o filme. É menos um esforço de camaleão, criar um personagem diferente a cada instante, do que o desafio de tornar crível uma crise de identidade que desde o começo nos é evidente.

Porque não haveria história sem um conflito, e o de Marcelo é aceitar quem ele realmente é. O roteiro faz de tudo para mascarar as pistas sobre o passado da família, então não vamos estragar a surpresa aqui. Vale dizer só que a foto tríptica do Carnaval é uma solução bastante inspirada. Também são bem sacadas as cenas com a mãe de Marcelo, uma cabeleireira, com suas várias fotos de celebridades dos anos 90 coladas do espelho do salão para se inspirar nos penteados. VIPs não se deixa desviar, portanto, dessa ideia de que estamos sempre tentando criar uma persona mais eficiente para nós mesmos.

VIPs não passa um minuto, também, sem repetir os momentos de euforia em movimento de Marcelo, seja dentro de um carro ou de seus aviões, e de reiterar o espírito puro do personagem, viajando de catarse em catarse. A mão de Toniko Melo pesa nesses momentos. É como a trilha sonora que toca mais alto do que os diálogos. Há tanta afetação em alguns planos (ângulo inusitado, ponto de vista pelo espelho) e a interpretação de Wagner Moura fica tão sempre próxima do overacting (sem contar o exagero dos penteados) que VIPs parece dividir com o seu protagonista a esquizofrenia.

No fim, talvez essas duas crenças nas máscaras - as do personagem e as da mise en scène - sejam indissociáveis. VIPs é o típico filme feito com a estética dos publicitários, e pela primeira vez essa constatação não é necessariamente um demérito.

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Nota do Crítico
Bom