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Crítica

Crítica: Um Parto de Viagem

O humor é masculino, mas as gargalhadas são unissex

Érico Borgo
04.11.2010
18h32
Atualizada em
21.09.2014
14h10
Atualizada em 21.09.2014 às 14h10

Para Todd Phillips, a melhor época da comédia foram as décadas de 1970 e 1980, quando o politicamente incorreto ainda não era a regra e as pessoas se divertiam com um pouco mais que uma ou duas piadas de peido. O cineasta referencia frequentemente o humor de gênios dessa era, como John Belushi - de quem pretende produzir a cinebiografia -, e explora em seu trabalho as relações de fraternidade entre homens.

As mulheres, afinal, como nos filmes de Judd Apatow, não têm vez no cinema de Phillips. São as prostitutas, loucas ou esquisitonas encontradas pelos protagonistas. No máximo aparecem em cenas pelo telefone, esperando (im)pacientemente os maridos. O diretor não parece entender o universo delas, pouco se importa ou, simplesmente, extravasa suas próprias frustrações a respeito do sexo oposto nas suas produções. Phillips é a resposta masculina aos filmes de Meryl Streep (o único "strip" do qual ele quer saber é outro).

Um Parto de Viagem

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Misógino ou não, pouco importa. A busca pela liberdade do cineasta, que atingiu excessos memoráveis em Se Beber Não Case (The Hangover, 2009), agora em Um Parto de Viagem (Due Date, 2010) espelha o clássico Antes Só do que Mal Acompanhado (Planes, Trains and Automobiles, 1987), mas com seu excelente humor leviano.

Como no filme de John Hughes, dois personagens completamente diferentes, incapacitados de viajar de avião, precisam aprender a confiar um no outro se quiserem chegar aos seus destinos. O filme de 1987 tinha Steve Martin e John Candy como esses dois sujeitos. Aqui, Robert Downey Jr. interpreta um pai "grávido" numa viagem de carro com o parceiro inusitado (Zach Galifianakis), correndo para chegar ao parto de seu primeiro filho.

As semelhanças são inegáveis, mas os personagens não poderiam ser mais diferentes. Downey Jr. é o retrato do homem domado contemporâneo, que tenta viver dentro das regras da sociedade mas, estressado, explode ao menor sinal de que as coisas estão fugindo ao controle e à lógica. Galifianakis, por sua vez, interpreta seu mais complexo personagem até aqui, o cheio de surpresas Ethan Tremblay.

As situações apresentadas não chegam perto da explosão de incorreção que foi Se Beber Não Case, mas há muito mais espaço para as drogas e o rock'n'roll (a cena de "Hey You" do Pink Floyd é memorável). Já o sexo está representado na masturbação. Há, afinal, algo mais misógino que mostrar o "sexo solitário" como vício masculino? Não se trata de uma comédia-família, portanto, mas as gargalhadas - unissex - estão garantidas.

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Nota do Crítico
Ótimo