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Crítica

Crítica: Um Homem Sério

Os irmãos Coen colocam mais um herói tragicômico sob provação - e vão além

Marcelo Hessel
18.02.2010
18h00
Atualizada em
21.09.2014
13h58
Atualizada em 21.09.2014 às 13h58

"O que eu fiz para merecer isso?" é a pergunta retórica que todo mundo se faz em períodos de provação. No caso dos religiosos, é mais um pedido por clemência. O professor judeu Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg) passa todo Um Homem Sério formulando-a para si mesmo, para seu advogado, para os rabinos da comunidade, para os céus. Mas quanto mais questiona mais apanha.

É uma pergunta, ademais, que todo protagonista das comédias de humor negro dos irmãos Joel e Ethan Coen deve se fazer em algum momento. Mas Larry Gopnik não é o grande Jeffrey Lebowski, nem o homem que não estava lá. Para ele, "o que eu fiz para merecer isso?" não é uma pergunta retórica. Como Larry leciona física, com inclinações matemáticas, na cabeça dele todo efeito teve antes uma causa.

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Talvez seja, portanto, o primeiro herói tragicômico dos Coen a buscar solução para seu perrengue não com reações, mas refletindo sobre a ação que desencadeou todo o processo - uma reflexão que tem tudo a ver com o momento de crise dos EUA (a bandeira na tempestade no final do filme não poderia ser mais clara). "Tudo é matemática", diz Larry, como se falasse de macroeconomia. Só que ele esquece de considerar que o caos também é um conceito matemático.

Os Coen transferem essa ideia de caos para o roteiro. A sacada estilística da primeira metade de Um Homem Sério está na forma como o filme nos enrola com relações de causalidade que são falsas. Entendemos, a princípio, que a história de Larry se passa em dois tempos (adolescente ouvindo música com fone/adulto fazendo exame de ouvido), mas essa premissa se revela uma armadilha. Em seguida, achamos que os acidentes de carro estarão ligados, mas não estão. Ou será que estão?

Ao embaralhar causas e consequências, os Coen conseguem impor ao seu protagonista um dilema ético puro (já que os fatores externos que influenciariam esse dilema são falsos ou operam sob nonsense). Dependendo do caminho escolhido por Larry, pode vir um castigo definitivo, não mais "de brincadeira". É diante de crises assim que homens tremem, não importa o credo. Como canta o Jefferson Airplane em "Somebody to Love", "quando a verdade se revela mentira, toda alegria interior se vai".

Nesse caso, é estreito enxergar em Um Homem Sério uma sátira ao judaísmo. Na verdade, talvez os Coen estejam fazendo o completo oposto. Ainda que sirvam de piada ao longo do filme, conceitos absolutamente abstratos como tradição e fé (livros na estante, cerimônias, acúmulos de histórias) terminam enaltecidos. "Por favor aceite o mistério", diz a certa altura o sul-coreano ao judeu matemático.

E aí, numa leitura politizada, em sintonia com a referência que os Coen fazem à crise econômica, tradição judaica se mistura com tradição americana. Se o momento histórico pede lições de moral, Ethan e Joel deram a sua.

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Um Homem Sério
A Serious Man
Um Homem Sério
A Serious Man

Autor: Ethan Coen e Joel Coen

Ano: 2009

País: Estados Unidos

Classificação: 16 anos

Duração: 120 minutos min

Direção: Ethan Coen, Joel Coen

Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen

Elenco: Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Fred Melamed, Sari Lennick, Aaron Wolff, Jessica McManus, Adam Arkin, George Wyner, Peter Breitmayer, Brent Braunschweig, David Kang, Benjamin Portnoe, Jon Kaminski Jr., Ari Hoptman, Alan Mandell, Amy Landecker, Simon Helberg

Nota do Crítico
Ótimo

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