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Crítica

Crítica: Um Homem Misterioso

Anton Corbijn traz sensibilidade europeia para os desgastados filmes de assassino

Marcelo Hessel
29.09.2010
14h14
Atualizada em
21.09.2014
14h08
Atualizada em 21.09.2014 às 14h08

Os filmes de assassino estão entre os mais saturados em Hollywood. A essa altura, todo grande astro já deve ter interpretado um matador profissional que se apaixona em serviço, que não consegue se aposentar, que é traído pelos colegas. A moda hoje, na era pós-Bourne, é fazer dessa premissa uma comédia ou um romance suburbano, mas Um Homem Misterioso (The American, 2010) pega a rota contrária.

Devolver a esse subgênero o que ele tem de essencial parece ser a intenção do diretor Anton Corbijn (Control). O primeiro plano - a câmera parada diante de uma cabana no meio da neve sueca, captando um foco pequeno de luz lá dentro - já sugere que o único refúgio possível para um persongem assim, cercado pela frieza, é a companhia aquecedora de uma mulher. Envolver-se emocionalmente é o eterno tormento de todo assassino, e com Jack (George Clooney) não é diferente.

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O roteiro inspirado no romance de Martin Booth A Very Private Gentleman, adaptado por Rowan Joffe, realoca Jack para a Itália, onde no pequeno vilarejo de Castel del Monte ele aguarda o seu próximo serviço, enquanto tenta descobrir o responsável pelo incidente que o forçou a deixar a Suécia. Ali Jack é O Americano do título, um tipo silencioso que evita se misturar com os italianos. Mas você já sabe como são belas e passionais as italianas...

Em seu segundo longa-metragem de ficção, o fotógrafo holandês Corbijn traz para Um Homem Misterioso o seu apreço pela imagem. Capturar a verdade de um personagem em seus gestos, entender uma situação com uma troca de olhares, é isso que o diretor procura, sem pressa. Os filmes de matador já são elegantes por natureza, com seus diálogos breves e seus heróis cheios de métodos e rigores, mas às vezes falta essa sensibilidade "europeia" que Hollywood importa de cineastas do Velho Mundo.

Com Corbijn, o filme se permite momentos que a indústria raramente vê, como a cena em que Jack, o homem que não deixa impressões digitais, se entrega a um cunnilingus na prostituta italiana. De modo geral, as cenas com mulheres são as melhores. O flerte do sexo e da morte, outra característica essencial do bom filme de assassino, é o ponto forte de Um Homem Misterioso, com suas femme fatales de saias transparentes e seus silenciadores fálicos.

Seria um filme melhor se essa sensibilidade europeia não se traduzisse, de resto, numa obrigação de transformar tudo em simbolismo (borboleta não dá) e de levar as boas ideias à exaustão ("Tu Vuò Fa L'americano" tocando no rádio). Nessas horas, dá a impressão - como já dava em Control - de que Corbijn, apesar do bom olho para ambientações, é cineasta de uma nota só. Se ele vai se tornar só um executor das encomendas "de arte" hollywoodianas, veremos em breve.

Nota do Crítico
Bom