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Solaris | Crítica

Nem ficção-científica, nem romance, nem drama, mas tudo isso ao mesmo tempo.

Marcelo Forlani
27.03.2003
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h13
Atualizada em 21.09.2014 às 13h13

"Uau! Um filme estrelado pelo bonitão George Clooney! E eu li em algum lugar na internet que mostra o bumbum dele... ai ai ai... Nossa, o diretor é o Steven Soderbergh, aquele cara que concorreu contra ele mesmo no Oscar [Traffic x Erin Brockovich] e ganhou! hehehe O quê?! O produtor é o James Cameron!? Aquele de barbichinha que fez o Titanic [idem, 1997], com o (mais lindo do mundo) Leonardo DiCaprio, né? Nossa, preciso ligar para as minhas amigas agora. Este filme deve ser muito legal!"

Este deve ter sido o pensamento de centenas de adolescentes americanas antes do lançamento de Solaris (idem, 2001). E aposto que algo muito parecido passou pela cabeça de pessoas com uma maior capacidade de discernimento. Mas a culpa não é deles. A Fox americana "vendeu" o filme como um blockbuster. A fita teve uma campanha maciça de divulgação, entrou em cartaz num número excessivo de salas (2406) e, por motivos óbvios, não preencheu as expectativas do público.

Solaris

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"Ah, então é porque o filme é um lixo!" Não, o filme está longe de ser um lixo. O problema é que apesar de ter realmente tudo o que está escrito ali em cima (Clooney + Soderbergh + Cameron), Solaris não é um filme feito para multidões sedentas por pipoca e refrigerante, romance e explosões. Os aspectos técnicos como a fotografia, a edição não-linear, a inexistência de trilha sonora em vários momentos são típicos dos filmes de arte e foi isso que ninguém explicou para os norte-americanos.

O livro Solaris (de Stanislaw Len), que em 1972 já havia gerado um filme homônimo do diretor russo Andrei Tarkovsky, foi a base para a história do planeta que entra no sistema solar e acaba afetando a vida da tripulação que foi enviada para estudá-lo. O psicólogo visivelmente solitário Chris Kelvin (Clooney) recebe, então, uma mensagem de um dos comandantes da expedição. Gibarian (Ulrich Tukur) pede ao doutor que vá o quanto antes à nave ajudá-lo. Na sua chegada, Kelvin só vê sangue, um menino (que sai correndo), cadáveres (incluindo o do amigo que o chamou) e dois sobreviventes: o atormentado Snow (Jamie Davies) e a intransponível Helen Gordon (Viola Davis). Realmente, há algo estranho no ar. Mas as coisas pioram quando ele vai dormir e acorda ao lado de Rheya (Natascha McElhone), a esposa que ele não via há muito tempo. Ela é real, ou uma alucinação causada pelo planeta cuja atmosfera parece um cérebro? Esta é a primeira pergunta de uma série sobre vida, morte, ressureição, livre-arbítrio e tantas outras.

Carta na manga

Clooney não era a primeira escolha para o papel de Kelvin. Teve que mandar uma carta (sim, ele ainda envia cartas para as pessoas) pedindo para ser ao menos testado no papel. Foi aprovado. Sem dúvida esta é a atuação que mais exigiu dele e o coloca na lista dos grandes astros com carisma, inteligência e real talento. Bem menos famosa até então, a inglesa McElhone, bonita e talentosa, deve ser mais requisitada por Hollywood depois deste papel.

Apesar da história se passar num futuro, ter uma viagem espacial e uma complicada história de amor, Solaris não é nem ficção-científica, nem romance, nem drama. E é tudo isso ao mesmo tempo! Aliás, classificá-lo é tão difícil quanto colocar um rótulo em Adaptação (Adaptation, de Spike Jonze - 2002). Impossível, diria.

Soderbergh certa vez falou que, assim como aconteceu com 2001: Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odyssey - 1968), Solaris será visto de uma maneira diferente em uma década. O filme de Kubrick, tido hoje como uma obra clássica do cinema, enfrentou semelhante muita dificuldade quando foi lançado. Se você aguentar esperar até lá, legal. Nós preferimos assistir agora, para podermos falar daqui a dez anos "Solaris? Sim, vi faz um tempão e é ótimo!"

Nota do Crítico
Ótimo