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Crítica

Crítica: Simplesmente Complicado

Nancy Meyers volta a pregar para a meia idade: nunca é tarde para ser disputada por dois homens

Marcelo Hessel
25.02.2010
17h00
Atualizada em
21.09.2014
13h59
Atualizada em 21.09.2014 às 13h59

Dos nichos com que Hollywood trabalha, nenhum é mais específico do que o público das comédias românticas de Nancy Meyers. Simplesmente Complicado (It's Complicated) retoma temas que estavam presentes em O Pai da Noiva 2 (1995), o último filme da roteirista antes de sua conversão para diretora a partir de 1998, e em Alguém tem que Ceder (2003): a redescoberta da juventude na meia idade.

Juventude, no caso, é um eufemismo para atividade sexual. Depois de dez anos divorciada de Jake (Alec Baldwin), Jane (Meryl Streep) se deixa levar pela festa de formatura de seu filho e transa com o ex-marido, cuja atual esposa é muito mais nova. Na cabeça de Jane, sua aposentadoria como mãe e ex-mulher já estava bem resolvida, mas a escapada com Jake acorda sua feminilidade e também suas incertezas - o que só piora quando ela conhece o arquiteto Adam (Steve Martin), também divorciado.

simplesmente complicado

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O triângulo amoroso sacia a obsessão mais recorrente de Meyers: repetir para si mesma e para as suas espectadoras que nunca é tarde para ser disputada por dois homens (desta vez Keanu Reeves não está no meio). É jogar para a torcida em vários sentidos. O roteiro lida com fantasias ora liberais ora burguesas (croissants e bolos, baseados, festas, reformas da casa) e a encenação as reitera: todo mundo sempre ri, se abraça e suspira para o alto como se estivesse num filme mudo.

Como nem tudo é alegria, Meyers balanceia essa fórmula de extremos com muita terapia de grupo. Ceder ou não ceder ao amor, enfim. A mania de analisar e problematizar tudo, como um Neuróticos Anônimos, está mais presente aqui do que nunca. Aliás, é muito sintomático que o personagem de Baldwin compare a situação do ex-casal com um filme francês. Desde a Nouvelle Vague nunca homens e mulheres discutiram tanto a relação.

Não dá pra exigir parcimônia de Simplesmente Complicado, mas seria prudente não subestimar a inteligência de quem assiste. Dá a impressão de que Jane era infeliz em todos os aspectos da sua vida antes da transa com o ex-marido - no dia seguinte ela chega para trabalhar em seu café e pede para o cozinheiro "botar mais vida" nos pães -, insinuação antifeminista antes de mais nada. Como as feministas devem ser as últimas a aceitar ver um filme de Nancy Meyers, voltamos à ideia do nicho regularmente mimado e cultivado.

Dizer que Simplesmente Complicado é mais do mesmo, então, não deixa de ser uma boa notícia para o seu público. O forte, assim como em Alguém tem que Ceder, é o elenco protagonista: Meryl Streep sabe sorrir sincero e Alec Baldwin aprendeu com o humor de 30 Rock a jogar com sua canastrice a seu favor.

O fraco segue sendo a direção. A falta de fluência de câmera e cortes é sofrível. Parece até que Steve Martin está atuando num universo paralelo ao do resto do elenco. E olha que o diretor de fotografia John Toll tem filmes de Francis F. Coppola e Terrence Malick em seu currículo... Com medo de não saber onde pôr a câmera, Meyers enquadra todo mundo de frente em close-ups. Em algumas cenas, como a conversa final da mãe com os filhos, o ângulo transforma coadjuvantes em protagonistas involuntários.

E isso só aumenta a sensação de complicada terapia coletiva. Está aí um título que faz justiça ao filme.

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Nota do Crítico
Regular