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Poesia | Crítica

Filme sul-coreano segue a lei primeira do bom melodrama: enxergar a vida nas pequenas coisas do cotidiano

Marcelo Hessel
24.02.2011
18h18
Atualizada em
03.11.2016
00h05
Atualizada em 03.11.2016 às 00h05

Em Sol Secreto, o filme anterior do diretor sul-coreano Lee Chang-dong, a protagonista passa por provações diversas e não parece encontrar, na realidade ao seu redor, motivos para superá-las. Uma personagem religiosa diz que é importante ver Deus nas pequenas coisas, como num raio de sol, mas a protagonista responde: "Um raio de sol é apenas um raio de sol".

Lee volta a testar a dor de uma mulher em Poesia (Shi, 2010), o seu longa mais recente, prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes. Desta vez, porém, um raio de sol não é só um raio de sol. Filme sincero que parte de uma trapaça, Poesia força a personagem a encarar o mundo com outros olhos e, por extensão, impõe também ao espectador esse novo olhar.

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A trapaça, implícita no título, é deixar claro, para quem não estava reparando, que há poesia em tudo aquilo que enxergamos. Mija (Yoon Jeong-hee) é uma avó que já passou dos seus 60 anos e agora procura coisas com que se ocupar. Ela se matricula em um curso de poesia. Estuda aplicadamente, mas não consegue escrever. Quando seu professor diz que há muito a se versar sobre uma mera maçã, por exemplo, Mija passa minutos observando uma, antes de descascá-la meio desapontada com a inspiração que não vem.

A realidade tratará de dar à senhora material para sentir... A avó descobre que o neto que ela sustenta abusou sexualmente, com outros amigos de escola, de uma menina que acaba de se suicidar. Mija precisa juntar dinheiro para calar a mãe - dizem os pais dos outros garotos - mas o que ela ganha cuidando de um velho sequelado por um derrame não é suficiente. E as más notícias estão só começando.

Poesia é um melodrama em acordo com o formato que o gênero adotou na segunda metade do século passado no cinema: histórias prioritariamente femininas, de desarranjo adulto diante do tempo e do mundo em constante mudança. Nos melodramas, questões cotidianas, como não ter dinheiro para pagar alguma coisa, se revestem de importância vital não só para o personagem mas também para o espectador. Revestem-se, por assim dizer, de poesia.

O filme de Lee Chang-dong seria, portanto, um Dançando no Escuro do bem. Ambos lidam com as convenções do melodrama de forma metalinguística, mas Poesia não sobrecarrega conscientemente sua heroína de desgraças para sabotar o gênero de dentro para fora, como faz Lars von Trier, e sim para devolver ao melodrama o que suas cenas mundanas têm de transcendentais (se o melodrama hoje precisa desse serviço de restauração, já é outra questão).

O fato é que o diretor tem sensibilidade para os detalhes, não importa se for só um jogo de badmington. O texto premiado em Cannes é mesmo redondo - Mija está ao tempo todo se questionando o que é poesia, e descobrindo a valiosa lição de que poético não é necessariamente sinônimo de belo - e a atuação de Yoon Jeong-hee ajuda a elevar Poesia, um filme que no papel parece bater numa nota só mas na tela se engrandece.

Poesia | Cinemas e horários

Nota do Crítico
Ótimo