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Crítica

Crítica: O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus

Muito mais do que apenas o último filme de Heath Ledger

Marcelo Forlani
24.10.2009
21h00
Atualizada em
21.09.2014
13h54
Atualizada em 21.09.2014 às 13h54

Genial e azarado. Esses são os dois adjetivos que melhor resumem o que é Terry Gilliam. O único estadunidense a fazer parte do grupo cômico Monty Python, Gilliam começou fazendo as animações non-sense que envolviam pés gigantes, cabeças que se abriam e mulheres assanhadas das vinhetas da série de TV e depois passou à direção de cinema. Estão no seu currículo filmes clássicos como Monty Python e o Cálice Sagrado, cultuados como Brazil e esquecidos como o recente Contra-Ponto, que saiu aqui direto em DVD. Mas ao assistir ao making of de Os 12 Macacos e ao documentário Lost in La Mancha é que vemos como os deuses do cinema vivem testando a fé de Gilliam. Principalmente neste último, que chegou a ser cancelado e tudo o que podia dar errado, deu. Do protagonista morrendo de dores nas costas e proibido de andar a cavalo a uma chuva torrencial que arrasou seu set de filmagens.

Depois de conseguir finalizar sem maiores problemas seus dois últimos projetos (Os Irmãos Grimm e o já citado Contra-Ponto), parecia que a maré de azar tinha passado. Até que veio o 22 de janeiro de 2008. Gilliam estava no meio das filmagens de O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus (The Imaginarium of Doctor Parnassus, 2009) e em um dos papéis principais estava Heath Ledger, incessantemente elogiado a cada nova cena que surgia da sua interpretação do Coringa em Batman - O Cavaleiro das Trevas, a ser lançado no meio daquele ano. O ator morreu em Nova York, deixando órfão sua pequena filha Matilda e sem rumo os amigos com quem filmava.

O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus

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O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus

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Gilliam quase teve de fechar as portas de sua produção de novo. E foi aí que entraram os amigos Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrel, que deram um passo à frente e se ofereceram para terminar o papel que o australiano interpretava. E quer saber? Se o filme fosse pensado dessa forma, talvez não ficasse tão bom. As cenas em que os três atores aparecem se passam dentro do tal mundo imaginário do Dr. Parnassus e lá você pode ser quem você quiser. Quem você sonhar. E por isso, a mudança de atores, que muita gente pode até estranhar no início, veste como uma luva em uma daquelas mãos que tem uma cabeça no seu topo.

Sim, a imagem é "gilliamética" e saiu mesmo da mente do desvairado autor. Essa e tantas outras, como águas vivas gigantes, balões de ar em formatos de cabeça flutuando por mundos coloridos, bocas que são "chupadas" nas caras das pessoas, cobras que aparecem do contorno de rios e escadas sem fim. Não há dúvida que Parnassus é o filme mais visual que Gilliam já construiu, equilibrando como nunca efeitos práticos com computação gráfica, como na cena em que acompanhamos o diabo conhecido como Nick (Tom Waits) chegando ao templo onde Parnassus (Christopher Plummer) comanda outros monges em meditações sobre tapetes voadores. Os dois fazem um pacto: em troca da imortalidade, Parnassus promete ao Diabo a sua filha quando ela completar seus 16 anos. Pensando ser mais esperto que o senhor das trevas, Parnassus não imagina ter filhos e consegue se manter invicto, até que conhece e se apaixona por uma mulher, a mãe de Valentina (Lily Cole). Quando o filme começa, Nick está de volta para cobrar seu prêmio. Tão bêbado quando desesperado, Parnassus tenta uma última cartada para manter a delicada e linda filha: conseguir cinco almas para ele antes do aniversário de Valentina, em três dias.

Tony (Ledger, Depp, Law, Farrel) entra em cena amnésico, pendurado pelo pescoço em uma ponte de Londres. É logo incorporado à trupe de Parnassus e com sua lábia vai ajudando a recolher as almas, para o desespero de Anton (Andrew Garfield), que sofre ao ver sua amada Valentina se apaixonando pelo novato. Porém, não se deve confiar em um personagem que foi batizado em "homenagem" ao ex-primeiro ministro britânico Tony Blair, descrito por Gilliam como um cara que "diria as coisas mais insanas e provavelmente acreditaria nelas".

Parnassus, no meio de todas as viagens entre o mundo imaginário e o cotidiano, ainda consegue guardar espaço para fazer críticas às pessoas que estão sempre atrasadas a ponto de deixar de sonhar e ao capitalismo. E há ainda um estranho número musical típico de Monty Python.

Talvez a história não agrade a todo mundo. Mas uma obra de Terry Gilliam jamais vai conseguir atingir tal feito. Sua mente funciona em uma frequência diferente. Seus sonhos são mais coloridos. Seus devaneios, mais sinistros. E seus filmes, bom, estes são cada vez mais ímpares no meio das fórmulas usadas pelas pessoas que podem até ser mais sortudas, mas não têm a mesma genialidade.

Nota do Crítico
Excelente!