Filmes

Crítica

O Incrível Hulk

Segundo filme da Marvel tem seus problemas, mas ainda assim é um bom gibi

Érico Borgo
12.06.2008
15h00
Atualizada em
02.07.2018
18h42
Atualizada em 02.07.2018 às 18h42

Há uma contrastante dualidade digna de Bruce Banner e Hulk no novo filme do monstro verde da Marvel Comics. Enquanto o estúdio e produtores, representados por um diretor de pouca expressão, buscavam um filme de ação e pancadaria - um legítimo "filme de verão" -, o ator e co-roteirista (ainda que não creditado) Edward Norton tratava o projeto como uma jornada angustiante de alguém com uma maldição.

Essa cisão revela-se dentro e fora das telas. Há na narrativa do filme uma mudança de passo perceptível. Quando Norton está em ação (e fisicamente parece saído direto dos quadrinhos) as intenções são o desenvolvimento do personagem, as tramas paralelas e muita conversa. Sobe a musiquinha do seriado, aquela, a do caronista David Banner, vivido por Bill Bixby na televisão. Quando o monstro está ocupando o espaço, voam cacos e sobram rugidos e pauladas.

A heterogeneidade dos dois segmentos é provada também nos bastidores. Louis Leterrier, o diretor, nos disse em entrevista que tem 70 minutos de cenas cortadas. Ora, ninguém filma tanto assim quando sabe exatamente o que quer. A não ser, claro, que sua intenção seja, sim, fazer um filme com quatro horas de duração (a la Peter Jackson). Não é o caso aqui. Leterrier seguiu dizendo que há muita coisa imprestável entre esses minutos. Ou seja: São dois os filmes. O de Norton e o da Marvel.

Curiosamente, essa fusão nem-lá-nem-cá acaba funcionando. É o milagre da boa montagem. Todas as vezes que o filme tem seus excessos, ou fica lento demais, há a cena seguinte para subir ou baixar o tom. Se Norton está muito lamuriento, vagando feito mendigo por alguma cidade esquecida, logo surgem os militares pra dar alguma sacudida na história. E se o Hulk urra pra cima pela enésima vez, braços abertos feito o King Kong (em certo momento temi que ele fosse bater no peito), não tarda para que ele se transforme de volta no franzino cientista.

O Incrível Hulk resulta, assim, num entretenimento palatável, mas muito menos ousado que o incompreendido longa de 2003 dirigido por Ang Lee.

O precursor deste Hulk, o do cineasta chinês, buscava uma linguagem própria, um tempo herdado dos chamados "filmes de arte". É um exercício de estilo e gêneros comparável a outro filme dele, esse bem melhor aceito: O Tigre e o Dragão. Era a Marvel Comics testando o território da DC.

Explico.

Peguemos o Eisner Awards (espécia de Oscar dos quadrinhos) como exemplo de comportamento das duas maiores editoras de super-heróis do planeta. Todos os anos a DC supera a Marvel de maneira assustadora ali. É uma editora, como seu grupo-mãe, a Warner Bros., que privilegia criadores, que dá mais liberdade, que ganha prêmios. Porém, a Marvel sempre vende mais. É no universo básico, menos complexo, mais divertido e controlado, que a editora de Hulk supera a concorrência comercialmente há anos. Agora, ao assumir controle de seus filmes, a chamada Casa das Idéias leva essas práticas ao cinema.

Note: Enquanto os filmes recentes (leia-se, depois dos tombos) da DC contam com cineastas conhecidos por seu estilo todo particular - Christopher Nolan e Bryan Singer - os da Marvel contrataram sujeitos de pouca expressão.

É inegável que Loius Leterrier, ainda que um diretor talentoso, não tem cacife para peitar os produtores da Marvel. Nem Jon Favreau, de Homem de Ferro, tinha. A sorte do segundo foi contar com uma equipe que olhava toda para a mesma (corretíssima) direção. Leterrier, por sua vez, amargou mais diferenças e seu filme sofreu com isso.

De qualquer maneira, O Incrível Hulk é um bom gibi mensal do personagem. Sobram referências a histórias clássicas, a ação é competente (o que já era esperado do diretor depois dos dois Carga Explosiva e Cão de Briga) e o melhor: O Hulk não está sozinho. Há aquela sensação de continuidade, de estofo fantástico, gerada pelas referências a outros heróis e vilões do Universo Marvel. Essa idéia, iniciada em Homem de Ferro e aprofundada aqui, será certamente o grande trunfo da empresa no cinema.

Resta torcer para que com o tempo não venha a complexidade que crossovers e séries muito longas acabam criando. Já pensou? Pra entender o filme do novo herói da editora você tem que ter assistido a outros dez anos de produções?

O Incrível Hulk
The Incredible Hulk
O Incrível Hulk
The Incredible Hulk

Ano: 2008

País: EUA

Classificação: 10 anos

Duração: 114 min

Direção: Louis Leterrier

Elenco: Edward Norton, Liv Tyler, Tim Roth, William Hurt, Tim Blake Nelson, Ty Burrell, Christina Cabot, Peter Mensah, Lou Ferrigno, Paul Soles, Débora Nascimento, Greg Bryk, Chris Owens, Al Vrkljan, Adrian Hein, John MacDonald, Shaun McComb, Simon Wong, Pedro Salvín, Julio Cesar Torres Dantas, Raimundo Camargo Nascimento, Nick Alachiotis, Jason Burke, Grant Nickalls, Joris Jarsky, Arnold Pinnock, Tig Fong, Jason Hunter, Maxwell McCabe-Lokos, David Collins, John Carvalho, Robin Wilcock, Wayne Robson, Javier Lambert, Martin Starr, Chris Ratz, Todd Hofley, Joe La Loggia, Tamsen McDonough, Michael Kenneth Williams, Roberto Bakker, Ruru Sacha, James Downing, Rickson Gracie, Stephen Gartner, Nicholas Rose, Genelle Williams, P.J. Kerr, Jee-Yun Lee, Desmond Campbell, Deshaun Clarke, Tony Nappo, Aaron Berg, David Meunier, Tre Smith, Moses Nyarko, Carlos A. Gonzalez, Yan Regis, Stephen Broussard, Robert Morse, Matt Purdy, Lenka Matuska, Scott Magee, Wes Berger, Carla Nascimento, Krista Vendy, Mila Stromboni, Robert Downey Jr., Stan Lee

Nota do Crítico
Bom