Transforme sua forma de curtir entretenimento

Icone Fechar
Filmes
Crítica

Crítica: O Fim da Picada

Terror experimental traz exu, saci e o Brasil colonial para a São Paulo de hoje

MH
23.08.2009, às 21H00.
Atualizada em 27.11.2016, ÀS 09H11

Não é de estranhar que três das participações especiais em O Fim da Picada sejam dos cineastas José Mojica Marins, Ivan Cardoso e Carlos Reichenbach. Há uma identificação clara entre os sobreviventes da Boca do Lixo mais entusiastas do cinema de horror com o trabalho do curta-metragista Christian Saghaard, aqui em sua estreia em longas.

Uma mulher retalhada em suas partes íntimas, oferenda satanista, abre em close-up o filme. É 1850 e Macário (Ricardo De Vuono) se regozija à beira-mar. Não demora até que o demônio lhe apareça em forma de Exu mulher, e embriagado Macário diz que gostaria de conhecer São Paulo.

A expressão popular "o fim da picada" ganha então sentido literal: uma passagem no meio da mata, e Macário de repente deixa o litoral e chega à capital, mas não está mais em 1850. Escoltado pelo Mickey Mouse, depois de viajar século e meio, Macário desembarca no Minhocão e descobre, como muito se repete ao longo do filme, que antes o diabo procurava os homens, agora são os homens que procuram o diabo.

Policiais vestidos como bandeirantes e abatendo trombadinhas com tiros de bacamarte são o que há de mais manifesto nesta tentativa de Saghaard de criar um paralelo entre a barbárie do Brasil Colônia e a do Brasil de hoje. O Fim da Picada funciona não só com base nesse díptico temporal, como emparelha imaginários populares de ontem e de hoje: Macário pira com um defumador que parece traje espacial de ficção científica, enquanto a mula-sem-cabeça e o saci interferem no trânsito da cidade.

Falando assim parece que há no filme uma unidade muito clara, mas algumas cenas soam como vinhetas isoladas, pensadas por seu potencial de provocação - a madame com o cachorro, o amigo incendiado, a mulher suando sangue na academia -, e quando Macário se ausenta demais O Fim da Picada perde foco. Não se exige aqui de Saghaard coesão, o que num filme sensorial desses seria descabido. Exige-se só um pouco de dedicação àquele que, afinal, deveria ser o protagonista.

É evidente que parte da graça vem da precariedade (a camisa do Corinthians borrada para esconder o patrocínio da marca de tintas) e do gore (da ponta de Ivan Cardoso não se esperaria outra coisa), mas o elogio do amadorismo só vai até certo ponto... Saghaard a esta altura, por exemplo, com sua carreira chegando já à maioridade, poderia deixar de lado trucagens primárias como o uso do filme negativo. Pode até ser recurso clássico do cinema de horror, mas negativar a imagem não deixa de ser uma coisa juvenil.

Saiba onde o filme está passando

o fim da picada

None

Omelete Recomenda

Nota do Crítico

Bom
Marcelo Hessel

O Fim da Picada

O Fim da Picada

2008
21.08.2009
80 min
Terror
País: Brasil
Classificação: 18 anos
Onde assistir:
Oferecido por

Comentários (0)

Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.

Sucesso

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a nossa Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.