Filmes

Crítica

Crítica: O Amor nos Tempos do Cólera

Faltam entranhas à adaptação do belo romance de Gabriel García Márquez

Érico Borgo
24.12.2007
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h31
Atualizada em 21.09.2014 às 13h31

Quando li pela primeira vez O Amor nos Tempos do Cólera, um amigo que me emprestou o romance avisou categórico: "Cem Anos de Solidão é incrível, mas o próprio Gabriel García Márquez disse que este é o livro que ele 'escreveu com as entranhas'".

Se o colombiano prêmio Nobel de literatura realmente declarou isso ou não, não sei - e a história é boa demais para ser desmentida por uma eventual busca no Google. Gosto dela assim. De qualquer forma, o que falta ao filme que adapta o livro é justamente isso... "entranhas".

Amor nos Tempos do Cólera

None

Amor nos Tempos do Cólera

None

Amor nos Tempos do Cólera

None

Mike Newell (O sorriso de Mona Lisa, Harry Potter e o cálice de fogo) é um diretor razoável, mas a passagem da apaixonada obra, supostamente inspirado pela história real do amor dos pais do escritor, às telonas é burocrática. "World Movie" demais. Talvez até assustada com a responsabilidade de transformar um dos maiores romances de todos os tempos em filme.

Numa primeira análise, salva-se a fotografia de Affonso Beato, que, como já era esperado, é linda, brilhante, com uma reconstituição de época competente (as tomadas externas de Cartagena são especialmente belas). Mas mesmo ela cai no lugar-comum dos papagaios, bananas e trepadeiras. Coisa pra inglês ver. Literalmente. Afinal, o filme é todo falado em "inglês exótico", com sotaque carregado, em detrimento do espanhol - língua falada por boa parte do elenco, como John Leguizamo (Terra dos Mortos), Hector Elizondo (O Diário da Princesa 2), Benjamin Bratt (O lenhador) e Catalina Sandino Moreno (Maria cheia de graça), todos em papéis secundários. E mesmo quem não fala espanhol tem nas línguas latinas seu idioma, como a brasileira Fernanda Montenegro (Casa de Areia), que consegue brilhar em algumas pequenas cenas como a mãe do personagem principal. Espanhol mesmo só na decente trilha sonora, especialmente composta pela conterrânea de Garcia Márquez Shakira, num tom completamente distinto de sua obra pop/rock habitual.

No papel do casal de protagonistas - Fermina Daza, amor perdido do apaixonado Florentino Ariza, que dedica 50 anos de sua vida a resgatá-la - estão Javier Bardem (Segunda-feira ao Sol) e a italiana Giovanna Mezzogiorno (O último beijo). A atriz não faz feio, convence em todas as fases da vida da personagem. Mas Bardem, pela primeira vez em sua carreira, parece deslocado, um pouco constrangido até. O homenzarrão que fez chorar em Mar adentro, que assusta em Onde os Fracos Não Têm Vez e causa repulsa em Sombras de Goya, aqui simplesmente não encontra o tom. O choro é fingido, o alento do sexo com estranhas é mal explorado e a dor de amor não é sentida, o que tira a força de todo o filme. O amor, força motriz da história, dessa forma parece mero capricho.

Garcia Márquez relutou por anos em ceder os direitos para a adaptação. Foi finalmente convencido depois dos produtores jurarem fidelidade à obra. Mas fidelidade em Hollywood não significa necessariamente entendimento à proposta. A adaptação de Ronald Harwood (O Pianista) mantém os elementos principais (supostamente o próprio Márquez revisou o texto) mas a falta de personalidade e sensibilidade do diretor limou todas as sutilezas, o erotismo, a trama intrincada e a profundidade dos personagens. O resultado é um mingauzinho leve... bem mastigadinho, coisa pra quem não tem entranhas mesmo.

Assista a clipes do filme

Nota do Crítico
Bom