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Monstros S.A. | Crítica

Eis a disputa do Oscar: Monstros S.A. X Shrek

Marcelo Hessel
14.12.2001
01h00
Atualizada em
21.09.2014
13h12
Atualizada em 21.09.2014 às 13h12

O ano de 2001 foi inesquecível por inúmeros motivos para os Estúdios de Walt Disney. Justamente quando se comemora centenário do nascimento do seu criador, a Academia de Hollywood resolve oficializar um Oscar na categoria longa-metragem em animação (leia nota aqui). Assim, o presente para o gênio que reinventou a fantasia infantil viria em 2002, na forma minúscula de um troféu dourado, sonho almejado desde a década de 40, quando as trilhas-sonoras de clássicos como Fantasia (1940) já enfeitiçavam a todos. Mas a temporada se mostrou irônica com a Disney. Depois de sessenta anos de hegemonia e revolução, a Disney tem grandes chances de perder a chance de receber o seu primeiro Oscar oficial fora do setor musical.

Diante da criatividade e da comicidade cortante de Shrek (2001), a certeza da premiação ficou abalada. Produzido pela Dreamworks, empresa de Steven Spielberg e Jeffrey Katzenberg, um ex-diretor da Disney, a aventura do ogro e seu companheiro burro superou Atlantis (2001) por larga margem nas bilheterias e no gosto popular. Se este fracasso não bastasse, Pearl Harbor, o maior investimento do estúdio não foi tão bem acolhido como se esperava.

Monstros S.A.

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Num cenário como esse, o lançamento de Monstros S.A. (Monsters, Inc, 2001) não só afasta o favoritismo absoluto de Shrek, como livra a Disney de um vexame histórico. Produzido em parceria com a Pixar, empresa de animação computadorizada responsável por Toy Story (1995) e Vida de Inseto (A Bugs Life, 1998), o filme alcançou a melhor marca da Disney em bilheterias no seu fim de semana de estréia nos EUA, com US$ 67 milhões. Ao contrário de Atlantis, uma aventura fantasiosa criada com técnicas tradicionais, Monstros S.A. desafia Shrek em seu próprio terreno: a artificialidade dos computadores misturada com altas doses de apelo emotivo e humor inteligente.

Campeão de sustos

A trama parte de uma premissa do imaginário infantil, os bichos-papões que se alojam em armários e atacam durante a noite. Em Monstrópolis, a crise energética é uma realidade, assim como o perigo de um apagão. Encarregada de salvar a cidade do caos, a empresa Monstros S.A. tira energia de uma fonte inusitada: o grito dos humanos. Através de uma passagem entre os universos dos homens e dos monstros, eles invadem os quartos das crianças do mundo todo - e arrancam, com um grande susto, o berro dos pimpolhos. Nesta realidade paralela, a atividade movimenta até uma certa competição. Sulley (voz de John Goodman na versão original), um bicho azul e peludo, é o grande campeão dos sustos e ídolo da cidade.

Mas nem tudo é fácil na vida de um monstro. Apesar dos dentes afiados e das garras gigantescas, um grande temor se faz presente. O simples toque de uma criança causa a morte instantânea, acreditam os bichos. Um mero pé de meia que, inadvertidamente, entre do lado dos monstros é motivo de interdição sanitária. Apesar do rigor das regras na Monstros S.A., porém, um acidente acontece. Uma garotinha, com os seus três anos de vida, invade Monstrópolis e instala o pânico. Claro, cabe ao herói Sulley resolver a questão.

Incrível vivacidade

Monstros S.A. prima por não fugir ao padrão Disney. A organização dos personagens obedece a preceitos vastamente experimentados. Sulley recebe a ajuda valorosa do tagarela Mike (voz de Billy Cristal, por sinal) um hilário bicho verde de um olho só e possui um rival fortíssimo, feio e malvado, o camaleão Randall Boggs (voz de Steve Buscemi). Também a trama não apresenta grandes surpresas - o final feliz emociona jovens e adultos. Nada de errado quanto a isso, as crianças adoram. A diferença que fisga os mais velhos, porém, se faz pelos detalhes. 

Como trunfo, Shrek visava claramente atingir o cerne da tradição Disney, com piadas ácidas dirigidas aos adultos. Já a força de Monstros S.A. tem outras fontes. Uma delas é muito usada na publicidade, a presença de uma criança fofa. Outro diferencial é a trilha-sonora jazzística, típica de desenhos dos anos 60 e 70. Aliás, as aberturas dos filmes da série Pantera Cor de Rosa, com o tema clássico de Henry Mancini (1924-1994), são outra referência explícita. Importantíssima, figura também a influência do humor rápido de Chuck Jones, criador dos personagens mais célebres da Warner, como o Pernalonga e o Patolino. Se cabe aqui o neologismo, a sequência final da perseguição é inteiramente pernalonguiana, com a devida atualização da velocidade digitalizada. Com todo esse cuidado na confecção, Monstros S.A. consegue o mesmo feito de Shrek - se mostra como um desenho de alta tecnologia, mas mantém uma incrível vivacidade. A disputa do Oscar agora está equilibrada. A simpatia dos bichos-papões se iguala ao carisma do ogro.

Nota do Crítico
Excelente!