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Crítica

Crítica: Milk - A Voz da Igualdade

Drama real indicado a oito Oscars - incluindo melhor filme - chega às telas

Marcelo Hessel
19.02.2009
17h00
Atualizada em
21.09.2014
13h45
Atualizada em 21.09.2014 às 13h45

A ópera no final, como em Philadelphia, e a música clássica que toca ao longo do drama político Milk - A Voz da Igualdade (Milk, 2008) são inequívocos. O primeiro trabalho do cineasta Gus Van Sant (Gênio Indomável, Elefante) depois de Paranoid Park reitera votos de esperança, à maneira Obama, neste momento de incerteza, mas no fundo é um filme de luto, um réquiem para um sonho.

Harvey Milk, o primeiro gay assumido a ser eleito para um cargo público nos Estados Unidos, foi assassinado em 1978. Se você não sabia disso antes de entrar na sessão, o próprio Van Sant dá a notícia no começo do filme. Milk (Sean Penn) está diante de um gravador, com microfone em punho, sentado na cozinha de sua casa, verbalizando seu testamento. Caso seja morto, diz ele, as fitas virão a público. A essa altura Harvey Milk tem consciência da importância de sua luta e de sua imagem. O longo flashback que vem a seguir nos dá o contexto.

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Como já adianta o título do livro sobre Milk, The Mayor of Castro Street, de autoria de Randy Shilts (no qual o filme não se baseia), o político ficou famoso como o "prefeito da rua Castro". San Francisco é hoje a meca dos gays nos EUA, em boa medida, pela forma aberta e engajada com que Milk administrava sua lojinha de material fotográfico na rua Castro ao lado do namorado, Scott (James Franco no filme). Se os outros comerciários da rua vinham ameaçá-lo, Milk retrucava com beijo na boca em plena calçada. Rapidamente a região se tornou seu nicho eleitoral.

Milk entrou na política para impedir que a polícia da cidade caçasse e matasse homossexuais impunemente. Como supervisor distrital (semelhante, a grosso modo, com nossos vereadores), poderia dar aos gays uma voz ativa, uma voz que os unisse. O ponto nevrálgico de sua luta - e que ecoa fortemente na situação vivida hoje na Califórnia - era a oposição à proposição 6, que em forma plebicitária sugeria em 1978 uma lei em que professores de escola homossexuais poderiam ser demitidos por justa causa.

Gus Van Sant, homossexual assumido, faz de Milk menos uma ode ao movimento do que ao homem. Não se trata, em outras palavras, apenas de uma radiografia militante de um momento histórico, mas de um filme dedicado a capturar a alma de seu protagonista. Sean Penn desaparece sob Milk, mas sua entrega física e emocional ao papel não seria a mesma sem a câmera do diretor de fotografia Harris Savides (Zodíaco, O Gângster) a registrá-la.

Savides já trabalhou com Van Sant quatro outras vezes, e seu talento para enquadrar semblantes em planos movimentados (como em Elefante) nunca ficou tão evidente como aqui. Ainda que seja no protesto público mais confuso, mais lotado, a câmera sempre dá um jeito que achar o rosto de Milk. O filme cresce com esse misto de documental urgente e drama íntimo.

É importante não perder Harvey Milk de vista, não desperdiçar suas falas, porque afinal é um filme de luto. Se pensarmos os trabalhos recentes de Van Sant como uma obsessão pelo efêmero da vida - Gerry, Elefante, Últimos Dias, Paranoid Park - então mais do que nunca Milk é uma cerimônia de respeito à morte. E o filme pode passar pelos olhos do público como uma mera historiografia panfletária, mas no fundo está mais para uma homenagem operística ao prazer de existir - e aproveitar.

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Nota do Crítico
Regular