Filmes

Crítica

Crítica: Memórias de uma Gueixa

Memórias de uma Gueixa

Marcelo Forlani
02.02.2006
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h19
Atualizada em 21.09.2014 às 13h19

Cantar. Dançar. Tocar. Sorrir. Conversar. Enfim, entreter. É este o resumo das obrigações de uma gueixa, palavra japonesa que significa "pessoa das artes". Para contratar uma dessas acompanhantes de luxo é necessário muito dinheiro e, ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, o sexo não é obrigatório no acordo entre contratante e contratada.

Esta percepção errada que mistura a figura das gueixas com a das prostitutas se espalhou com mais força no Ocidente depois da ocupação norte-americana no Japão, após a Segunda Guerra Mundial. Nesta época de miséria, muitas mulheres se autodenominavam gueixas ao vestir um quimono e vender seus corpos pelos dólares vindos do outro lado do Pacífico.

Memórias de uma Gueixa

None

Memórias de uma Gueixa

None

Memórias de uma Gueixa

None

É este pedaço da história do Japão e os anos que os precederam que são mostrados em Memórias de uma gueixa, famoso livro escrito pelo norte-americano Arthur Golden, e que agora viram filme nas mãos de Rob Marshall (Chicago).

No período pré-Guerra, o Japão ainda experimentava um momento de euforia e os figurões do alto-escalão sempre tinham ao seu lado as gueixas. Para se tornar uma dessas cobiçadas mulheres, as japonesas passam a vida toda treinando suas habilidades de tocar o shamisen (espécie de banjo), servir o chá, desenhar os ideogramas, dançar, etc. Quando a pequena Chiyo (Suzuka Ohgo) é vendida para uma okiya (casa de gueixas), ela logo se torna alvo de Hatsumomo (Gong Li, 2046 - Os segredos do amor), que vê na jovem menina de olhos cinza-azulados o risco de perder sua posição de gueixa mais lucrativa da casa. Relegada ao papel de escrava, Chiyo volta a sonhar em ser uma gueixa quando conhece o presidente de uma companhia (Ken Watanabe, de O último samurai). Sob a tutela de Mameha (Michelle Yeoh, de O tigre e o dragão), Chiyo muda de nome. Passa a se chamar Sayuri (Zhang Ziyi, de O tigre e o dragão) e logo se torna a mais cobiçada gueixa da região. Porém, ela ainda tem pelo Presidente um sentimento proibido na sua profissão: amor.

Futon curto

O pôster, os trailers, cada uma das imagens divulgadas, a trilha sonora composta por John Williams e tocada pelo violoncelista Yo-Yo Ma... tudo isso mostra que, artisticamente, Memórias de uma gueixa (Memoirs of a geisha, 2005) é um dos filmes mais lindos do ano e que merecidamente ganhou seis indicações técnicas ao Oscar. Sua história, porém, não consegue empolgar tanto quanto o mise en scéne. O romance proibido entre Sayuri e o Presidente não convence. Talvez pela própria ética da profissão - que proíbe este tipo de aproximação entre os dois - o espectador pode se convencer de que o casal não vai ficar junto e deixa de torcer, como faria em qualquer outro filme romântico. Ao puxar o cobertor (ou seria futon?) de um lado, Rob Marshall deixa o outro descoberto.

Na sua tentativa de tornar o filme o mais comercial possível, o cineasta norte-americano conseguiu reunir um ótimo e conhecido grupo de asiáticos, o que, aliás, causou grande polêmica. Os japoneses ficaram indignados ao ver chinesas (Gong Li, Zhang Ziyi) e a malasiana (Michelle Yeoh) no papel das gueixas principais, dizendo que esta arte está intimamente ligada à cultura local e que elas não conseguiriam passar ao filme um retrato real da profissão. Os chineses também não gostaram de ver duas de suas mais famosas atrizes como "prostitutas". E as gueixas reclamaram da citação do mizuage, o lendário leilão da virgindade, que é bastante destacado tanto no livro quanto no filme e fortalece a idéia de prostituição da qual elas tentam se desvencilhar.

E esta busca pelo pote de ouro no fim da bilheteria se mostra o grande tiro no pé dado pelo diretor. Ao fazer o filme todo falado em inglês, pensando no preguiçoso público norte-americano que não gosta de legendas, Marshall perde a força da língua, a espontaneidade das falas, a chance de ter atuações mais realistas. Além do forte sotaque dos atores atrapalhar o bom entendimento do texto em inglês, decorar as palavras é muito diferente de interpretá-las. E esta falta de alma nos diálogos é sentida durante todo o longa. Tudo o que as belas imagens se esforçam em construir fica diminuído, como um caríssimo quimono de seda imóvel em um cabide.

Nota do Crítico
Bom