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Crítica

Crítica: A Lenda dos Guardiões

Animação revisita a jornada do herói com visual surpreendente

Érico Borgo
07.10.2010
17h28
Atualizada em
07.11.2016
17h00
Atualizada em 07.11.2016 às 17h00

Arquétipos baseados nos clássicos gregos, jornada do herói, situações conhecidas e mais que revisitadas em todas as mídias. A Lenda dos Guardiões (Legend of the Guardians: The Owls of Ga'Hoole, 2010) é mais um filme a empregar essas estruturas em uma aventura infanto-juvenil.

Nada de novo, portanto, na história da corujinha Soren, que cresceu ouvindo histórias de grande batalhas das corujas, em que os Guardiões de Ga´Hoole enfrentaram e derrotaram o exército dos "Puros". Na trama, quando Soren é sequestrado e descobre que a ameaça que se julgava exterminada está de volta, ele deve procurar a ajuda dos lendários Guardiões e encontrar forças para tornar-se um dos heróis que cresceu admirando.

A Lenda dos Guardiões

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Dentro dessa lógica, a Lenda dos Guardiões tem um pouco de Harry Potter e muito de Star Wars (só pra ficar em dois exemplos mais imediatos). Não dá pra não pensar no velho Ezylryb como um "Obi-Wan-Coruja", já que o velho guerreiro aposentado treina Soren Skywalker nas artes do combate elegante. Sai a "Força", entra a "Moela".

O roteiro de John Orloff (O Preço da Coragem) e John Collee (Mestre dos Mares), com base na série de livros infantis de Kathryn Lasky, limita-se, portanto, a entregar todos os requisitos esperados de uma aventura épica para o público jovem. Enquanto isso, coube à Animal Logic, que já havia trabalhado com as produtoras Village Roadshow e Warner Bros. em Happy Feet, as surpresas.

O visual criado pela empresa australiana através de computação gráfica é magnífico. Na entrada da pré-estreia, a WB brasileira colocou corujas de verdade para que as crianças pudessem interagir com os animais. Pois o filme parece um retrato live-action daqueles mesmos bichos de tão realista. Cada pena é destacada das demais, move-se individualmente, libera partículas quando roçada... não é simplesmente uma textura de penas aplicada ao elemento.

Além disso, a animação de personagens não aposta no antropomorfismo para resolvê-los, o que deve ter dificultado - e muito - o trabalho da equipe. As corujas e animais movem-se como corujas de verdade (não usam as asas como mãos e dedos, como é comum em animações com aves). As licenças poéticas são centradas mais nas caras e bicos, que emulam expressões mais humanas, o que vira até piada em determinada cena, com dois vilões experimentando suas caretas.

A trama bem amarrada e o visual impressionante podem ser acompanhados ainda do 3D estereoscópico, já que o filme chegou com essa opção às telas. Mas não há grande diferença entre o 2D e o 3D. Ainda que bem realizada, em certos momentos a versão tridimensional fica meio desfocada. Em outros, melhora a ação - como na cena do grande tornado.

Trata-se de um projeto inusitado para o cineasta, considerando sua cinematografia, e Zack Snyder, diretor conhecido por levar às telas as histórias em quadrinhos 300 e Watchmen, fez um bom trabalho dirigindo A Lenda dos Guardiões à distância (ele aprovou tudo no Canadá, filmando Sucker Punch, através de videoconferência com a Austrália). Quando conversamos durante a produção ele contou que estava feliz porque "pela primeira vez meus filhos poderão assistir a um filme meu".

O problema é que Snyder parece um pouco desconectado do que as crianças estão gostando hoje em dia. O filme não tem humor (os alívios cômicos são quase nulos) e o tom épico é exagerado, assim como a violência. Não há sangue, claro, mas as situações de combate são bastante incisivas. Já as emoções - que atrairiam os adultos, a la Pixar - são superficiais (acredita-se no exército de corujas, mas não na transformação do irmão de Soren). Não há muito como errar seguindo estruturas de história tão antigas quanto a linguagem escrita e usando técnicas de ponta de animação, mas dá, sim, pra se equivocar dirigindo o filme a um determinado público e não fazer concessões sobre seus gostos e preferências para se adequar. Os fãs do cineasta e de técnicas de CGI devem apreciar A Lenda dos Guardiões, mas não diria o mesmo de seus filhos.

A Lenda dos Guardiões
Legend of the Guardians: The Owls of Ga´Hoole
A Lenda dos Guardiões
Legend of the Guardians: The Owls of Ga´Hoole

Ano: 2010

País: EUA, Austrália

Classificação: LIVRE

Duração: 90 min

Direção: Zack Snyder

Elenco: Emily Barclay, Abbie Cornish, Essie Davis, Joel Edgerton, Deborra-Lee Furness, Ryan Kwanten, Anthony LaPaglia, Helen Mirren, Sam Neill, Richard Roxburgh, Adrienne DeFaria, Sacha Horler, Bill Hunter, Miriam Margolyes, Barry Otto, Geoffrey Rush, Angus Sampson, Jim Sturgess, Hugo Weaving, David Wenham, Leigh Whannell, Gareth Young

Nota do Crítico
Bom