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Crítica

Crítica: Kick-Ass - Quebrando Tudo

Matthew Vaughn coloca heróis diante do espelho

Marcelo Hessel
17.06.2010
17h32
Atualizada em
21.09.2014
14h03
Atualizada em 21.09.2014 às 14h03

O nosso herói se olha no espelho depois de levar uma surra e parece perplexo com as feridas. Exerce seu ofício com dedicação e é assim que a criminalidade retribui? Ele só esperava um pouco de reconhecimento e, quem sabe, ficar com a donzela no final. No caso de Daniel Craig, o protagonista de Nem Tudo é o que Parece, seria uma bela recompensa: Sienna Miller de cinta-liga.

O filme de estreia do britânico Matthew Vaughn como diretor, depois de produzir os primeiros sucessos de Guy Ritchie, já tinha esse elemento que em Kick-Ass - Quebrando Tudo é central: a jornada do herói enquanto penitência. O traficante de drogas vivido por Craig em Nem Tudo é o que Parece se assemelha ao nerd sem noção que decide virar super-herói em Kick-Ass. Ambos acham que conhecem o sistema e suas regras, mas seus olhares sempre foram de espectadores desse sistema.

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Daí a perspectiva frontal do espelho. Se a ideia é dar ao personagem uma consciência que permita entender o que significa ser herói, antes de mais nada é preciso olhar para si mesmo. Quando Dave Lizewski (Aaron Johnson) veste pela primeira vez o macacão verde-amarelo de Kick-Ass, ainda é um espectador. Encanta-se com sua coreografia de golpes. Já na cena, bem adiante, em que se olha no espelho (cena idêntica à de Craig no outro filme) para medir o olho roxo e o sangue na boca, deixou de ser um espectador para virar de fato o protagonista de sua própria história.

Espelhos são uma constante em Kick-Ass, mas Matthew Vaughn estende essa maneira frontal de encarar as coisas a diversas outas situações. A mediação entre espectadores e espetáculo é questão importante do filme. A defesa do latino espancado é mediada pelo YouTube, o ataque de Big Daddy ao galpão é visto pela câmera de vigilância, e a cena do castigo é transmitida mundialmente ao vivo. Repare como a câmera pega frequentemente de frente, em close-up, todos os coadjuvantes. É como se eles estivessem assistindo ao mesmo filme que nós. O ápice desse jogo de perspectivas não poderia ser outro: o contra-ataque filmado em primeira-pessoa.

Mas para Dave, um protagonista, esse processo de fruição é diferente. Vaughn foi e tem sido criticado pela violência do filme, mas ela é trabalhada de modo bastante sofisticado pelo diretor. Quando envolve os vilões, o espetáculo midiático, é uma violência caricatural: micro-ondas gigante, espada japonesa, bazuca. Quando envolve Dave Lizewski e sua jornada de conscientização, é importante que haja uma mudança de chave: a violência passa a ser mais verossímil, nível canivete na barriga, e o sangue digital dá lugar ao sangue de corante.

(Mesmo quando produzia os filmes de Guy Ritchie, Vaughn já parecia acreditar no caráter transformador da violência. Não é um maneirismo; sem ela Kick-Ass não existiria.)

Essa variação de texturas de sangue é o tipo de coisa que seria difícil desenhar na HQ que deu origem ao filme. Vaughn e a roteirista Jane Goldman, ademais, arredondam a maioria das arestas da minissérie de Mark Millar. Em ambas as mídias, Kick-Ass é imperfeito. O terceiro ato continua uma bagunça, passou por melhoras (a entrada de Red Mist não tem mais o falso mistério da HQ) mas piorou em outros trechos (a cena do incêndio antes colaborava na construção do herói, agora tem relevância zero).

A mudança mais significativa do filme em relação à HQ, que envolve as ambições amorosas de Dave, é crucial. É um momento tipicamente peterparkiano, essa ideia da renúncia pessoal em nome do heroísmo - e Millar, a essa altura, já olha para esses clichês com cinismo. O Kick-Ass de Vaughn pode ser metido a cool, mas de cínico não tem nada. Se a HQ nasceu mais como uma desconstrução da jornada do super-herói, o filme devolve ao arquétipo o que lhe é de direito - mas sem ingenuidades.

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Kick-Ass - Quebrando Tudo
Kick-Ass
Kick-Ass - Quebrando Tudo
Kick-Ass

Ano: 2010

País: EUA, Inglaterra

Classificação: LIVRE

Duração: 117 min

Direção: Matthew Vaughn

Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Chloë Grace Moretz, Christopher Mintz-Plasse, Nicolas Cage, Mark Strong, Omari Hardwick, Xander Berkeley, Clark Duke, Garrett M. Brown, Evan Peters, Deborah Twiss, Lyndsy Fonseca, Sophie Wu, Elizabeth McGovern, Stu 'Large' Riley, Michael Rispoli, Corey Johnson, Kenneth Simmons, Anthony Desio, Randall Batinkoff, Dexter Fletcher, Yancy Butler, Craig Ferguson, Jason Flemyng

Nota do Crítico
Ótimo