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Crítica

Crítica: O Golpista do Ano

Comédia tenta impedir leituras polarizadas ao sugerir interpretações por conta própria

Marcelo Hessel
03.11.2009, às 00H00
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 13H54
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 13H54

Rodrigo Santoro é especialista em papel de doente, Ewan McGregor sempre interpreta bem tipos afetados e Jim Carrey tem predileção por personagens que subvertem a lógica das aparências. Estão os três, enfim, muito à vontade em O Golpista do Ano (I Love you Phillip Morris), mas a questão é entender o uso que o filme tenta fazer deles.

A controversa comédia dos roteiristas e diretores Glenn Ficarra e John Requa (roteiristas de Papai Noel às Avessas) se baseia na história real ("e é real mesmo", reafirmam os créditos iniciais) de Steven Russell, ex-oficial de polícia, pai de família, que ficou famoso por escapar da prisão no Texas quatro vezes. A especialidade de Russell era forjar identidades - de executivo de finanças, de médico, de advogado - tanto do lado de fora quando para fugir da cadeia.

Seria a típica história do homem que usa mil máscaras porque no fundo não tem rosto, mas o caso é que Steven Russell é gay - "gay, gay, gay", como Carrey diz em cena - e isso abre ao filme uma outra perspectiva. A simples opção por associar a amoralidade glamourizada dos filmes-de-ladrão à reafirmação da homossexualidade dá brecha para interpretações.

Uma possível, e que circula desde que o filme foi exibido no Festival de Cannes, é que teria tendência à homofobia - ou pelo menos a incentivaria. Dentro da prisão, Steven conhece Phillip Morris (McGregor) e faz de tudo para facilitar a vida do namorado, até pagar para que o detento vizinho que berra a noite toda seja espancado. O casal vive, na prática, em um regime de exceção, comendo camarão e chocolate - e o pesadelo de qualquer reacionário, aqui do lado de fora, é imaginar um mundo em que os gays tenham mais direitos do que ele.

Ao mesmo tempo, é possível enxergar a cadeia como o único lugar onde Steven e Phillip foram felizes de verdade. Ali todos são iguais - ainda que "nivelados por baixo", reduzidos a um número no uniforme branco - e não há a necessidade do teatro social que Steven interpreta do lado de fora, jogando golfe com chefes e fingindo ter uma noiva. O catálogo de disfarces do ladrão então ganha outra conotação - a falta de identidade de Steven seria uma contínua ameaça de sair do armário. E sair do armário de verdade, porque ser gay em Miami não conta.

São duas leituras possíveis de um filme que, talvez ciente dessa polarização, começa automaticamente a sabotar aqueles (como os críticos de cinema) que tentam achar em filmes uma unidade. Essa é a grande sacada de Requa e Ficarra, estreantes na direção: impedir uma interpretação ao sugerir várias.

Porque na verdade Steven faz o que faz não por ser gay, mas para suprir a falta de sua mãe. Adotado na infância, ele passou a vida inteira tentando provar aos outros que poderia ser amado e ter "a vida que merece", como diz. Repare que Steven revê a mãe adotiva em delírio, quando está na cama à beira da morte. Mas e se ele não estiver morrendo de fato? E se for outro golpe? Essa reminiscência do passado teria sido um engodo, e o artifício de Requa e Ficarra para nos despistar, desmascarado.

Se bem que Steven vivia no Texas, Estado conservador, e no fim do filme descobrimos que as fugas constantes do malandro eram um embaraço para o então governador, George W. Bush. Se Steven diz que o resto das pessoas são idiotas, ele se refere ao "fuckin' Texas", o que torna I Love you Phillip Morris não uma provocação, com direito a cenas quase explícitas de felação, mas um filme político.

Mas na verdade Steven age para se vingar da carolice da sua ex-esposa, que sempre disse que Jesus tinha um plano maior para ele. O céu aparece o tempo todo em I Love you Phillip Morris, até mesmo pintado no teto do tribunal (acompanhado nessa cena de música lírica), então o que o nosso herói faz, no fundo, é pintar um falo na cara de Deus.

Ou todas as alternativas anteriores.

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i love you phillip morris

None

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Nota do Crítico
Bom
O Golpista do Ano
I Love You Phillip Morris
O Golpista do Ano
I Love You Phillip Morris

Ano: 2009

País: EUA

Classificação: 16 anos

Duração: 102 min

Direção: Glenn Ficarra, John Requa

Roteiro: John Requa, Glenn Ficarra

Elenco: Jim Carrey, Ewan McGregor, Leslie Mann, Rodrigo Santoro, Brennan Brown, Nicholas Alexander, Tony Bentley, Michael Beasley, Sean Boyd, Marcus Lyle Brown, Trey Burvant

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